A relação entre Portugal e a Guiné-Bissau atravessa hoje um dos momentos mais tensos desde a independência. O que antes era uma guerra surda, feita de gestos diplomáticos silenciosos e pequenas fricções, ameaça agora tornar-se um corte estrutural nas pontes históricas que unem os dois países. A principal novidade é que, contrariamente ao que sucedia nos governos anteriores, o atual Executivo português encontra-se refém da pressão exercida pela extrema-direita de André Ventura e do seu Partido Chega.
O episódio recente envolvendo a proibição da entrada em Portugal de seguranças presidenciais guineenses portando armas, algo que em outros tempos teria sido resolvido com pragmatismo diplomático, funcionou como detonador de uma cadeia de represálias e desconfianças. A resposta imediata da Guiné-Bissau — silenciando e expulsando órgãos de comunicação social portugueses — apenas acentuou a crise. Agora, a situação degradou-se ainda mais: 41 estudantes guineenses foram barrados à entrada no Aeroporto de Lisboa, alegadamente por falta de requisitos formais.
Esta decisão, comunicada pela Associação de Estudantes da Guiné-Bissau em Lisboa, revela não apenas um endurecimento administrativo, mas também um grave sintoma político. Quando estudantes são tratados como potenciais “ilegais” em vez de futuros quadros da lusofonia, Portugal envia um sinal de hostilidade e de desvalorização das suas próprias relações históricas.

Não tenhamos ilusões: o Chega e Ventura rejubilam com cada incidente que fragiliza a ligação entre Portugal e os países africanos de língua portuguesa. Já o governo PSD/CDS, liderado por Luís Montenegro, vacila entre a tentação de agradar à extrema-direita em nome de ganhos eleitorais imediatos e a responsabilidade de governar um país com vocação histórica para o diálogo intercontinental. O problema é que, na balança do governo, as próximas eleições autárquicas parecem valer mais do que as relações estratégicas com a CPLP.
Mas a consequência dessa fraqueza será cara e duradoura. Num mundo multipolar, onde Espanha, França, Grã-Bretanha e até novas potências emergentes disputam influência em África, Portugal não tem margem para se fechar numa Europa que, apesar de importante, não esgota as suas possibilidades. Se Lisboa abandonar, por miopia ou preconceito, a construção de relações sólidas com a Guiné-Bissau, Moçambique, Angola ou Cabo Verde, outros Estados mais ágeis ocuparão o espaço deixado vazio.
É precisamente aqui que se impõe um alerta às forças democráticas portuguesas: não é apenas a Guiné-Bissau que está em jogo, mas o próprio futuro da política externa de Portugal. Ao submeter-se ao discurso ultra-conservador e excludente, o governo de Montenegro arrisca-se a hipotecar décadas de cooperação, desperdiçando capital político, económico e cultural que não será facilmente recuperado.
Portugal precisa de acordar antes que seja tarde. A sua identidade histórica sempre se construiu como ponte — entre a Europa, África e o Atlântico. Abandonar essa vocação em troca de cálculos eleitorais seria não só um erro estratégico, mas também uma traição ao seu próprio legado.



