Israel construiu ao longo dos anos uma doutrina rígida de controlo absoluto sobre a Faixa de Gaza. O bloqueio marítimo é um dos símbolos dessa política: nada entra, ninguém sai, sem passar pelo crivo de Telavive. Para manter esta posição, Israel tem recorrido à interceção de pequenas embarcações solidárias que, ciclicamente, tentam furar o bloqueio. Até agora, tratou-se sempre de ações limitadas, com um ou dois navios facilmente interceptados e desviados para portos israelitas, os passageiros detidos por algumas horas ou dias e depois expulsos.
Mas o cenário muda radicalmente quando a escala aumenta. Uma frota de dezenas de veleiros, muitos deles embarcações de recreio, com centenas de ativistas a bordo, não se resolve com a mesma simplicidade. O problema para Israel deixa de ser apenas operacional e passa a ser também político e diplomático.

Primeiro, a logística da interceção. Abordar um veleiro em alto-mar exige meios navais, comandos armados e toda uma operação tática. Multiplique-se esse esforço por 40 ou 50 embarcações, dispersas, cada uma com dezenas de cidadãos estrangeiros, e a equação complica-se. A marinha israelita não tem capacidade ilimitada para sustentar uma operação de bloqueio desta dimensão sem expor fragilidades.
Segundo, a questão diplomática. Prender centenas de cidadãos europeus é muito diferente de deter meia dúzia de ativistas isolados. Espanha já declarou apoio diplomático aos que partem de seus portos. Outros países, confrontados com a detenção massiva dos seus cidadãos, podem ser forçados a reagir. Israel arrisca transformar uma operação militar rotineira num incidente diplomático de larga escala.
Terceiro, a batalha da imagem. Israel sabe que cada interceção é filmada, fotografada e transmitida em direto. A probabilidade de confrontos violentos, feridos ou até mortos aumenta proporcionalmente ao número de barcos abordados. A acontecer, será devastador para a narrativa israelita.
É precisamente aqui que reside a fragilidade da política israelita: quanto maior a escala da solidariedade, maior o custo de a reprimir. O que antes era facilmente controlado pode transformar-se num pesadelo mediático e diplomático. E se Israel não reage, abre-se uma brecha política no bloqueio, que poderá ser explorada por futuras iniciativas.
O silêncio europeu perante Gaza tem sido ensurdecedor, mas a partir do momento em que os seus cidadãos passam a ser os protagonistas, a pressão sobre os governos aumenta. Israel está consciente disso e por isso encara estas flotilhas com tanta hostilidade. Não é a ameaça militar que teme, até porque não existe, mas sim a ameaça política, a demonstração de que o bloqueio pode ser desafiado, e de que a sua manutenção se torna tanto mais difícil quanto maior for a escala da solidariedade internacional.
Três portugueses integram a Global Sumud Flotilla: a deputada Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda, o ativista Miguel Duarte e a atriz Sofia Aparício.




