O POÇO DA CIDADE

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Comprou-se o terreno, na mira da construção. Dava mesmo jeito levantar ali um edifício, pela oportunidade da sua localização na cidade. Só que aconteceu depois o que não se esperava: facilmente tudo ali ficava encharcado, mal caía uma chuvada maior; por outro lado, a proximidade às muralhas, património classificado e sujeito a regras, condicionou profundamente o ideado. Já lá vão mais de vinte anos! E o projeto ficou sem efeito.

Recordou-se, então, que por aí, junto a essa Porta do Sol ou da Estrela, à entrada nascente da cidade da Guarda, se situavam outrora as melhores hortas. Ali havia as melhores terras, cresciam as melhores couves e demais produtos hortícolas. Era como que a horta da cidade. O terreno, parecia, ressumbrava.

Havia, porém, por perto construções com ar de nobreza, que não passaram despercebidas, por exemplo, a Virgílio Ferreira, que as referiu num dos seus livros. Também despercebido não passava um letreiro patente numa casa que, em tempos, deve ter sido construída aproveitando a parede da muralha medieval bem junto a uma das portas, a já referida Porta do Sol ou da Estrela. Está localizada extra muralha, logo fora do perímetro da mesma; contudo, se o edifício se encontra ligeiramente descolado da muralha, o portal onde se encontra o lintel com a inscrição é biselado, remetendo assim para uma construção dos séculos XVI ou XVII ou uma reutilização posterior das pedras antigas…

Precede o letreiro assim como que uma espécie de sol com raios. Isso percebe-se: deve ser a representação do sol. Agora, as letras: o que quereriam elas dizer? As pessoas olhavam, achavam curioso, interrogavam-se e… seguiam viagem!

O certo é que, de facto, lê-se claramente ‘pozo da cidade’. José Luís Madeira teve a gentileza – que muito agradecemos – de nos oferecer o respectivo desenho.

No século XVI, poço escrevia se com z.

Poderá perguntar-se: «poço da cidade»? Que interesse há aí em identificar tão solenemente o sítio onde está o poço? As pessoas não sabiam? Saber sabiam; contudo, o letreiro assim solene acentua o valor que ele tem; e, por outro lado, identifica muito importante recurso da cidade: a água!

Habituados como – felizmente! – ainda estamos a ter água com um simples abrir de torneira, esquecemos que água ao domicílio só começou, e mui timidamente, pela terceira década do século XX! Durante muito tempo, o chafariz público com os tanques de lavar roupa acoplados – e, antes dele, as fontes e as nascentes – era o ponto de encontro da vizinhança. Nesse âmbito da importância do poço, chegou-se mesmo a propor, por exemplo, que o topónimo BIRRE, de uma localidade da freguesia de Cascais, devia ter tido origem etimológicana palavra árabe Bir, que significa «poço», fazendo, assim, remontar à época árabe o povoamento desse lugar, nascido em torno de uma nascente pública de chafurdo – que, diga-se de passagem, sem consulta prévia à população, há anos o executivo camarário alienou a um particular.

Sítios e localidades há em cujo nome entra a palavra ‘poço’, a anotar a sua antiguidade ou as lendas a eles associadas:

– Poço da Moura: sítio emblemático do Ecomuseu Natural e Cultural da Serra da Labruja, em Ponte de Lima;

Poço de Broca das Frádigas, freguesia de Vide, concelho de Seia;

– Caminho do Poço das Casas, em Almancil;

Poço das Casas, pequena aldeia do concelho de Condeixa-a-Nova, que recebeu o nome de um antigo poço que abastecia os viajantes do percurso Coimbra – Tomar;

– em Lisboa, o Poço do Borratém….

Poço do Borratém, Lisboa

E um pouco por toda a parte: a Rua do Poço, o Caminho do Poço… Inclusive no concelho e no distrito da Guarda: o conhecido Poço do Mestre, em Trancoso; a aldeia de Poço Velho, em Almeida; a Rua do Poço, em Celorico da Beira, designação que remonta ao século XVIII; a freguesia de Poço do Canto, no município de Meda…

Por isso se diz que mudar o topónimo Poço de Boliqueime, no concelho de Loulé,  para apenas Boliqueime correspondeu a uma atitude impensada e, porventura, caprichosa. Primeiro, mudou-se para Fonte de Boliqueime; as placas toponímicas da Via do Infante apenas registam Boliqueime. O povo acabou por solicitar que, de novo, fosse Poço, ainda que, na actualidade, seco ele esteja já.

Voltando à cidade da Guarda dir-se-á ainda, para completar o enquadramento deste poço já inexistente e que, porventura, seria por ali perto, mostram-se postais antigos da Porta da Estrela e edifício anexo, lado direito, onde se encontra a inscrição.

(artigo em co-autoria com Dulce Helena Borges)

3 COMENTÁRIOS

  1. Estas inscrições antigas, conforme a época que a escrita revela e que depois terão sido, eventualmente, usadas em épocas posteriores, deixam-nos sempre “água na boca”.
    Aqui no sentido literal do termo, porque as pessoas, os viajantes e seus animais, precisavam desse bem essencial tanto como da própria comida.
    Daí a importância de tanto poço na história das civilizações. Entre nós ainda hoje assinalado o termo pelo país fora na toponímia local como marco de descanso, porque os ditos, já secaram.
    Não me agradava a palavra Birre, mas se provém do árabe Bir com significado de poço, já entrou na minha lista dos topónimos mais agradáveis.
    Muito grata por este texto, José d’Encarnação, em que, como em tantos outros, aprendi tanto de novo.

  2. De: Ana Revez
    Enviada: 10 de setembro de 2025 00:06
    Adorei o texto do Poço da Cidade, falando do Poço da Guarda e tantos outros poços e sítios deste país que conheço e visitei! E mesmo na Guarda, onde trabalhei e tenho uma situação bem engraçada com um velho e uma foice à beira de uma fonte no sopé do Jarmelo por baixo de uns castanheiros seculares, o Sul do país não fica esquecido nem sozinho! Grande José! Fala-se até do Poço de Almancil, mocê dé! Que tem rotunda pequenina com restos do mesmo, sendo sem dúvida o lugar mais antigo e reconhecido da terra (para os velhos, claro…), hoje já cidade, proclamada há uns meses em Diário da República mas sem justificação alguma para além do número de residentes… estrangeiros…. enfim… Outrora uma mansio, depois apenas um poço… hoje terra de magnatas e infelizes…

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