Há filmes que, pessoalmente, ganham em não ser visionados na altura em que surgiram nas salas. Fui, em tempos, um frequentador assíduo de cinemas, prática que fui perdendo à medida que se instalavam as ficções estelares que vieram substituir a cinematografia do velho Peplum, repleto de vilões e heróis mais ou menos míticos e de capitosas donzelas com mais curvas que talento. Os ruidosos trituradores de pipocas também contribuíram para este desgosto, sentido com melancólica aceitação, como aceitei – ou não? – o desaparecimento de tantos outros locais e coisas de memórias recentes e antigas.
Descansai: nesta temporada de fugidia alienação sugerida pelas férias em modo tentado, não vou traçar uma lista de cinemas desaparecidos. Desejo apenas, en passant, recordar o Avis, em Luanda (Ah! Mais uma vez, Angola!…), onde, entre outros, assisti à projecção de um inesquecível Kartum. Este filme, confesso, teve para mim um sabor especial, porque me embalava ainda no sonho imperial que toda a Europa abandonara já, deixando-me o gosto de cinza das epopeias vencidas, epopeias que não eram de todos, afinal.
Mas, com estas recordações de um outro tempo e vivência, afastei-me, sem o desejar, destas Duas Linhas, inspiradas pela solidão estival, quando tudo parece permanecer inalterado à nossa volta, embora saibamos que não é assim e as ausências, multiplicadas, se instalam com todo o seu peso, sem tréguas, sem forma, sem cor, mas reais, tão reais. Continuemos a navegar um pouco à bolina, proa à onda, nesta crónica, apenas guiado pelo farol do tema central que escolhi.
Por acaso, vi há alguns dias – expressão que tem aqui apenas o sentido de medida de tempo, pois foi à noite – um filme que deve ter passado entre nós em 1964 e que, confesso, talvez na altura não me tivesse levado ao cinema. A película em questão foi O Deserto Vermelho, de Antonioni.

Este filme conta uma história tão actual, com os seus mistérios, encontros, desencontros, desesperos e fraquezas humanas, sobre um fundo de decadência da civilização industrial, poluidora, insensível, destruidora, um filme quase ecológico, porque humano. A narrativa, protagonizada por Mónica Viti, decorre no cenário deprimente dos subúrbios fabris de Ravena (Fig. 1), outrora centro de outro poder, o do também decadente Império Romano do Ocidente. Mas isto são outras histórias, que talvez fosse bom recordar nestes tempos europeus tão infelizes e incertos. Fica para outra oportunidade.

Não quero assumir a função de crítico cinematográfico, embora reconheça agora leituras que não faria há mais de meio século. A propósito de leituras, ocorre-me que o romance de Jean Lartéguy – quem o lê hoje? – A Cidade Estrangulada, quando o reli há pouco, me causou um sentimento de tristeza, muito diferente do que sentira ao lê-lo em Luanda, pois nessa época ainda não se instalara o deserto da dúvida, um dos muitos desertos vermelhos que apoquentam o homem e a sociedade, sempre sensíveis aos renovados (?) ventos da História, que cultivam desertos e secam vidas. Quem duvidar que veja os noticiários televisivos. E não se iluda!
Talvez a lição última do filme de Antonioni seja a única a observar, neste confuso e não menos vergonhoso século XXI: a de que devemos aceitar a nossa vida como somos, pois não teremos outra. Esqueceremos, assim, o princípio enunciado no título do livro do arqueólogo Gordon Childe, O Homem Faz-se a Si Próprio, cuja leitura nos foi sugerida pelo Prof. Furtado, em Faro, num tempo em que o Algarve era outro? O tempo passou e deixou marcas e desertos. Um deles chama-se Guerra do Ultramar ou Colonial – hoje, nada passa sem uma multiplicidade de sentidos, com a conveniente incerteza e indefinição… – e este deserto nem todos o conseguiram já atravessar. Uma guerra que muitos pretendem ocultar, calando-se como num quase pacto de silêncio, calando sentimentos e experiências, para além da permanente vulgata habitual, mergulhados num banho de acusações, suspeitos disto e daquilo.
Talvez por isso os antigos combatentes experimentem um sentimento de culpa generalizada, uma espécie de pecado original de toda uma geração que começa a desaparecer e ainda procura um sentido para aquele tempo, que não seja apenas o da perda absurda. Será esta razão que inibe os veteranos de usar o distintivo concedido pelo Ministério da Defesa, exprimindo o Reconhecimento da Nação? Porque se consideram culpados? Porque os fizeram sentir culpados? Numa época de anacrónicos revisionismos históricos – e é preciso não esquecer o quanto o uso da História ao serviço de Política é perigoso, por ser sugestivo e muito eficiente… – não chamou aos militares de então uma conhecida jornalista nossa contemporânea a soldadesca, palavra desde logo odiosa? Afinal, quem fez o 25 de Abril?

Envelhecemos, os almoços de confraternização vão rareando e, na busca de um sentido para o que sucedeu, erramos num deserto vermelho, sem rumo garantido para tanta memória contraditória. Consideramos que não vivemos esses anos e que os perdemos para sempre, de todas as formas? Como hei-de terminar este escrito? Que esperança invocar para que este Verão, já adiantado, de sombras alongadas, seja aquela estação impossível de penumbras frescas em quartos velados e de insuspeitos hinos ao Sol e não a busca insensata do perdido? Afinal, não será a vida uma procura constante de nós próprios, sacrificados à identidade do que pensamos ser?
As comédias de Verão preenchem as salas quase vazias dos cinemas, o calor aperta, as guerras continuam, toda a gente finge a felicidade garantida por mais uma aquisição supérflua ou apenas por um gelado apetitoso, com sabor exótico, como deve ser agora. Quanto ao mais, os desertos vermelhos continuam por aí, individuais ou colectivos, de braço dado com o tempo passado, que já foi futuro. E ardem as árvores, que também já o foram, ontem.




