O secretário-geral da ONU exigiu o fim das “mentiras”, “desculpas” e “obstáculos” à entrada de ajuda humanitária em Gaza. Não falou da retirada das tropas israelitas. Guterres sempre foi pragmático. Mas, na declaração, deixou claro: Israel é responsável pela tragédia em curso na Faixa de Gaza.
Não mencionou os bombardeamentos contra civis, nem os ataques a hospitais e escolas, nem o assassinato premeditado de centenas de jornalistas, médicos e socorristas. Preferiu falar da fome, imposta deliberadamente por Israel – uma fome usada como arma de guerra. É crime de guerra. Mas Guterres não usou essas palavras.

Ainda assim, acusou Israel de destruir infraestruturas, de tornar a vida impossível para a população e de continuar a bloquear a ajuda humanitária. As palavras coincidem com a entrada das tropas israelitas no centro da cidade de Gaza, avanço precedido por bombardeamentos que transformaram o local numa zona de morte.
Desta vez, Guterres disse basta.


Falou bem, mas falou pouco e falou tarde. O Papa Leão XIV também lançou um “forte apelo” para o fim do conflito. Nem um nem outro arriscaram mais. Não bateram o pé, não puseram o corpo na frente. Para travar o que está a acontecer, teria sido preciso mais: presença pública, discursos duros, pressão constante, mobilização internacional. E dizer a Netanyahu e ao bando de assassinos que o rodeia que a hora de pagar há de chegar para eles.
Israel poderia ignorar. Talvez. Mas não sabemos. Há momentos em que os líderes israelitas tremem, como depois do ataque ao Hospital Nasser, que matou cinco jornalistas. Netanyahu chamou-lhe um erro. Foi um sinal de fraqueza. Um sinal de que o genocídio pode ser travado pela força da pressão internacional.
Faltou, até hoje, a coragem política a quem tinha obrigação de “os ter no sítio”. Coragem para ir a Gaza. Coragem para se pôr na fronteira do Egito com Gaza. Coragem para exigir com voz firme o fim do massacre. Coragem para enviar forças de interposição, como defende – sozinho – o Presidente da Irlanda.



