O CASO DE NININHO

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Um cantor de etnia cigana encher a maior sala de espetáculos de Portugal é uma novidade absoluta em Portugal. Claro que há outros ciganos famosos, casos do futebolista Ricardo Quaresma, do político Carlos Miguel, mas nem a fadista Severa conseguiu o estatuto de grande vedeta que Nininho Vaz Maia já meteu no bolso. Encher o Meo Arena duas noites seguidas, não é para todos.

MEO Arena cheio são 20 mil pessoas a assistir

O sucesso de Nininho Vaz Maia parece ser um marco inédito, embora artistas ciganos tenham tido impacto na música portuguesa, especialmente no fado e no flamenco. Normalmente, os artistas ciganos deixam-se ficar no meio onde se sentem mais seguros e raramente saem do nicho étnico. Ou não os deixam sair.

O caso de Nininho é interessante porque junta influências do flamenco, da música cigana e do pop, criando um estilo único que chegou ao grande público. Claro que Nininho está a faturar o facto de se ter tornado figura pública, depois de ter sido juri no The Voice da RTP. Sem essa catapulta, talvez não tivesse chegado ao Meo Arena, embora nos últimos três anos tenha esgotado outras grandes salas, como o Coliseu, o Campo Pequeno e a Super Bock Arena.

A televisão continua a ser um dos meios mais eficazes para construir fama rapidamente, especialmente num país como Portugal, onde os programas de talentos e entretenimento têm um grande impacto. Se Nininho Vaz Maia tiver uma boa equipa de gestão e apoio da indústria, pode manter-se relevante por muito tempo, talvez até chegar aos mercados internacionais.

Entre a comunidade cigana existem outros músicos talentosos, que ninguém duvide. Acontece que o caminho para eles ainda é mais difícil que para os outros. Os ciganos continuam a carregar um estigma social complicado.

O caso do Nininho Vaz Maia pode abrir caminho para que mais artistas da comunidade cigana sejam descobertos, mas será preciso que a indústria e os media apostem neles de forma consistente, e não apenas como algo exótico ou passageiro. Se houvesse mais espaços para a música cigana no mainstream — rádios, festivais, colaborações com outros artistas já estabelecidos — talvez o cenário começasse a mudar.

Também precisam de arriscar, sair do nicho étnico. Se os artistas ciganos diversificarem estilos fora do círculo tradicional, podem ter mais hipóteses de furar na indústria. No fundo, é uma questão de estratégia: manter a identidade sem ficar preso a um rótulo limitador.

Num mundo perfeito, as rádios passariam música feita por ciganos, assim como os programas dos canais de televisão que promovem artistas, os festivais de música iriam contratar artistas ciganos de qualidade, mas não vivemos num mundo perfeito.

Não é a primeira vez que o The Voice Portugal dá a mão a um artista racializado. Aconteceu com o angolano Anselmo Ralph há uns anos. É o exemplo a seguir.

trecho de artigo publicado em junho de 2024 em The Voice Kids

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