O presidente da Guiné Bissau visitou agora a Turquia, reuniu com Erdogan, numa altura delicada para o governo turco devido às manifestações de protesto pela detenção judicial de vários líderes da oposição.
A visita de Sissoco Embaló é um risco para o Presidente guineense. Os seus opositores políticos não deverão hesitar na tentativa de colar a imagem de Sissoco à repressão das manifestações turcas, tentando criar algum paralelismo com situações passadas em Bissau.
A interpretação desta visita pode variar conforme a perspetiva adotada, podendo ser vista tanto como uma demonstração de apoio ao governo turco, como uma continuidade das relações diplomáticas entre os dois países, sem necessariamente implicar uma posição sobre a situação política interna da Turquia.
A Guiné-Bissau tem relações próximas com a Turquia. Empresas turcas têm em curso investimentos em infraestruturas, na agricultura e na segurança da Guiné-Bissau. Além disso, as visitas de Estado não costumam ser adiadas excepto em situações de grande sobressalto, o que não é o que se passa na Turquia, apesar de tudo.

A solidariedade islâmica também pode ser um fator relevante, já que tanto a Guiné-Bissau como a Turquia são países de maioria muçulmana ou com forte influência islâmica. A Turquia tem procurado fortalecer laços com países da África Ocidental, especialmente aqueles com populações muçulmanas significativas, como parte da sua estratégia de influência global. Erdogan tem usado essa aproximação com nações africanas de maioria muçulmana para expandir a presença turca no continente, rivalizando com países como a França e a China.
O PRESIDENTE VOADOR
Umaro Sissoco Embaló tem mantido uma agenda internacional intensa, algo incomum para um líder da Guiné-Bissau e até para muitos chefes de Estado africanos.
Sissoco Embaló tem um estilo carismático e gosta de ser visto como um líder influente. Apresenta-se frequentemente como um mediador em crises africanas e um interlocutor entre África e potências globais. Esse protagonismo pode ser um fator importante na sua agenda de viagens.
Ao projetar uma imagem de estadista internacional, Embaló também consolida a sua posição entre os guineenses, ao mostrar que tem reconhecimento e apoios externos. É facto que tem sido um ator relevante na política africana, intervindo em crises regionais e mediando conflitos (como no Mali e na Guiné-Conacri).
O que é interessante é percebermos que Sissoco trata Putin por irmão e Macron manda o seu avião a Bissau para Sissoco almoçar com ele em Paris. Pode ser um elo interessante entre partes em conflito, ele transita entre diferentes blocos de poder, o que é raro para um líder de um país pequeno como a Guiné-Bissau. E consegue manter boas relações tanto com potências ocidentais (França, União Europeia, EUA) quanto com atores que desafiam a ordem global tradicional, como Rússia, Turquia e países do Golfo.



