O regime precisa de oposição

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O enorme cartaz dos sociais-democratas não agrada a muitos dos militantes do PPD/PSD. Porque contradiz as bases do Partido, mais ruralistas e pouco interessadas no republicanismo.

O PPD/PSD tem a génese na ala liberal do antigo regime. Foi uma invenção de Marcelo Caetano, que arranjou 30 nomes para refrescar o regime salazarista, moribundo desde a queda de Salazar no forte do Estoril. Dessa ala faziam parte José Pinto Leite, Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão, Magalhães Mota, Miller Guerra, entre outros. Foi há 50 anos.

João Miller Guerra marcaria a última etapa do Marcelismo ao fazer o discurso contra a intervenção da polícia na Capela do Rato, onde se discutia a Guerra Colonial. Milhares de soldados portugueses morreram nessas guerras estúpidas em África.

Nesse dia 23 de Janeiro de 1974, já muito próximo do estertor do 25 de Abril, Miller Guerra avançou porque Sá Carneiro tinha tido problemas com… o voo do Porto para Lisboa.

O PPD nasceria dias depois do 25 de Abril e era um partido ruralista, popular, com uma pitada da Igreja progressista de Miller Guerra e outra pitada do riquismo de Balsemão -que todos os dias retornava à Quinta da Marinha no seu Porche.

Armas e fundos decapitam PPD

O cartaz vem destacar o republicanismo, coisa indiferente para Sá Carneiro. Ele haveria até de convidar os monárquicos populares de Ribeiro Teles para a Aliança Democrática. Em apenas 6 anos, a AD derrubou o PREC – Processo Revolucionário em Curso. Em 1980, a Aliança Democrática  ganhava as eleições ao PS, PC e extrema-esquerda. E em Dezembro desse ano, Sá Carneiro e o brilhante Adelino Amaro da Costa morriam na queda de uma avioneta.

Francisco Sá Carneiro tinha substituído José Pinto Leite, na liderança da Ala Liberal, porque… Pinto Leite morreu num estranho desastre de helicóptero na Guiné-Bissau em 1969.

As colónias, as guerras sujas, as armas e o Fundo do Ultramar decapitaram a direita portuguesa.

A rodagem de um carro, levou Marcelo Rebelo de Sousa a empurrar Cavaco Silva para a liderança. Tinha sido ministro das Finanças de Sá Carneiro, que terá deixado de gostar dele. Depois veio Durão Barroso, maoísta que serpenteou até à Golden Sachs. A seguir Santana Lopes que tentou reconduzir os ruralistas e a pequena burguesia à sigla PPD. Passos Coelho veio pela mão de arbusto de Cavaco Silva. E eis-nos agora no reino de Rui Rio, de fatos castanhos, com um ligeiro “tch” e “bs” na pronuncia e muito receio dos dotes oratórios de António Costa.

No cartaz ainda se introduz a ideia estapafúrdia do apelo à máscara que se fosse um departamento da Direção Geral de Saúde. Mas ligam a questão ao “precisamos de ti”. Não morras, para o PPD/PSD ganhar as eleições.

O regime precisa da oposição

O cartaz está errado para os militantes de base do PPD. Desesperam com a inútil oposição de Rui Rio. O PPD não precisa dos portugueses, como diz o cartaz. São os portugueses a precisar de uma oposição. O cartaz é, no entanto, útil para António Costa se estimular. Caso contrário, voltamos ao tempo da Assembleia Nacional.

O PPD foi secando à medida que perdia noção das suas origens. O partido mudou de nome para PSD e (só para nós que ninguém nos ouve) havia até quem quisesse que o partido aderisse à Internacional Socialista.  

De regresso à “vaca fria”, olho para o cartaz e sei que muitos militantes do PPD/PSD teriam preferido a reedição do «Hoje somos muitos, amanhã seremos milhões». E o país também ficava grato. Porque não há democracia sem oposição.

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