O almirante deu um passo em frente e voluntarizou-se para a luta eleitoral. Vai de “peito às balas”, mas sabe que vai receber apoios. A questão é saber se serão os apoios que lhe interessam. O almirante já tem o fundamental: prestígio pessoal. Talvez lhe falte dinheiro para a campanha, o que só se consegue com apoios partidários ou indo ao banco pedir um empréstimo… Mas é possível que tudo o que lhe falte vá chegar mais depressa do que imaginamos.
Depois de Marques Mendes já se ter anunciado como o candidato natural do PSD, Chega e PS terão de se apressar para não dar voltas de avanço ao adversário.
O Chega, apesar dos votos recebidos nas legislativas, tem um problema estrutural: o partido é André Ventura e não há alternativa credível dentro da estrutura, não há uma figura com dimensão nacional capaz de suportar uma candidatura presidencial séria. Ventura sabe disso e também sabe que perder uma eleição presidencial, sobretudo se for ele o candidato, pode corroer a imagem do “escolhido por deus” que vem cultivando. Um erro de cálculo pode desfazer anos de crescimento político.
Por isso, uma solução “externa” como Gouveia e Melo deve estar a ser ponderada no Chega. É um candidato de prestígio, que Ventura poderá apoiar sem se expor demasiado, tentando capitalizar votos fora da sua bolha radical. O problema é que isso só funciona se o Chega for o primeiro a mexer-se.
O PS precisa de quebrar este ciclo em que tudo lhe corre mal. Apoiar a candidatura do almirante será uma solução expedita com possibilidade de vitória. Lembremo-nos que foi num dos governos de António Costa que Gouveia e Melo se notabilizou quando foi chamado a organizar a vacinação massiva da população, durante a pandemia covid-19. Se o PS declarar apoio ao almirante, o Chega fica automaticamente fora da equação. Gouveia e Melo, uma vez associado à “família socialista”, torna-se tóxico para o eleitorado de Ventura. Não há como apoiar o mesmo candidato que os socialistas, depois de anos a elaborar um discurso de oposição ao “sistema”, ao “centrão” e aos partidos que governaram nas últimas décadas. Ventura não pode apoiar um nome “abençoado” pelo PS sem perder a face.
Portanto, vamos ver quem corre mais rápido. Ninguém tem dúvidas que entre o Chega e o PS, o almirante está mais próximo dos socialistas. Não só por ter sido escolhido por António Costa para liderar a taskforce de combate ao covid-19, mas porque o homem deve detestar o estilo arruaceiro dos ‘cheganos’ e deverá ter horror à ideia de se ver arrastado para a trincheira de um discurso populista e divisionista.



