Manchester e a sombra do genocídio em Gaza

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O atentado de Manchester, classificado como ato terrorista pela polícia britânica, deixou 2 mortos e 4 feridos no dia mais sagrado do judaísmo, o Yom Kippur. Um automóvel lançado contra fiéis à porta de uma sinagoga, seguido do esfaqueamento de um segurança, terminou com o autor abatido pela polícia. Ficámos sem saber quais as verdadeiras motivações do autor do atentado.

O Primeiro-Ministro Keir Starmer prometeu reforçar a segurança das sinagogas e proteger a comunidade judaica, um passo essencial para preservar a confiança no Estado de direito. No entanto, a leitura política do episódio não demorou a ser disputada. O ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Gideon Sa’ar, apressou-se a atribuir ao recente reconhecimento do Estado da Palestina pelo Reino Unido um suposto papel no “incentivo” a terroristas. Essa narrativa procura deslocar a questão: do genocídio em curso na Faixa de Gaza — condenado por múltiplas instâncias internacionais — para um gesto diplomático simbólico.

É aqui que importa introduzir o conceito incómodo mas inevitável: terrorismo como arma dos pobres. Ao longo da história, quando populações inteiras se viram esmagadas por forças militares estatais, muitas vezes sem qualquer possibilidade de resistência convencional, surgiram formas de violência assimétrica. O automóvel convertido em arma é a versão contemporânea de um velho padrão: quando não há tanques, aviões ou exércitos, resta apenas o corpo ou um objeto banal transformado em instrumento de ataque.

O terrorismo individual é a expressão desesperada perante o terrorismo de Estado — e no caso da Palestina, esse terrorismo de Estado tem um nome claro: um genocídio prolongado contra um povo, que vive há 70 anos sob ocupação, bloqueio e bombardeamentos. Quando Israel destrói cidades inteiras, mata milhares de civis e mantém uma política sistemática de colonização e expulsão, pratica aquilo que o direito internacional reconhece como crimes contra a humanidade.

O adágio de que “a violência gera violência” aplica-se a este caso. Ao dizimar a população palestiniana, Israel não pode fingir surpresa se se torna alvo de ódio e vingança. A diferença é que o Estado pratica uma violência institucionalizada, planificada e em larga escala — terrorismo de Estado — enquanto o indivíduo radicalizado dispõe apenas de meios precários, improvisados. Ou seja, não há nenhuma equivalência entre o que se passa em Gaza e o que aconteceu em Manchester.

O atentado de Manchester prova, mais uma vez, que a resposta não pode ser apenas policiamento reforçado nem retórica sobre “ódio irracional”. É preciso coragem política para enfrentar as causas profundas, incluindo a denúncia firme do terrorismo de Estado israelita e o apoio efetivo a mecanismos internacionais de responsabilização.

Em Manchester
Em Gaza (vídeo)

Enquanto isso não acontecer, o ciclo continuará: o genocídio em Gaza gera ressentimento; o ressentimento gera terrorismo individual; o terrorismo individual serve de pretexto para o genocídio.

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