No âmbito dos trabalhos de restauro efectuados recentemente no interior da Capela do Divino Espírito Santo, em Vide, na freguesia de Vila da Rua (concelho de Moimenta da Beira), foi encontrada, atrás do retábulo-mor – bem maltratada, a pobrezinha!… – a imagem de um santinho.
Com cerca de 46 cm de altura, fracturada em três partes, falta-lhe metade da cabeça e o resto do corpo, até aos pés, a partir dos quadris – como pode ver-se pelas fotografias que houve oportunidade de fazer.
Pressupomos que se trata de uma imagem de São Francisco de Assis, pois lhe descortinamos numa das mãos a Bíblia (representando o seu profundo amor pela palavra de Deus) e o que poderá ser a representação de uma pomba (pelo conhecido amor aos animais) ou de um cordeiro (simbolizando Jesus e remetendo para o sacrifício de Cristo, o “Cordeiro de Deus”, que São Francisco se esforçou para imitar através da pobreza e humildade), que são os elementos distintivos do santo, assim como o cíngulo com que apertava o hábito na cintura.

Será obra datável de inícios do século XV, quando os Franciscanos se estabeleceram em Vide, vindos de Lisboa, e acabaram por influenciar aquele que viria a ser o fundador do Convento de São Francisco de Caria, Gil Vasques, conforme nos relata Frei Vicente Salgado no manuscrito 220 (série vermelha) que está na Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa, Memórias dos Conventos da Congregação da Terceira Ordem, onde dá conta, a fls. 19v.-20, do Convento de S. Francisco, de Caria. Aí se declara expressamente (actualizamos a grafia):
«Feita a deixação do convento de Santa Sita, da Diocese Lisbonense, pelo Provincial Fr. João da Ribeira, se recolheram alguns de nossos primitivos em uma ermida, junto ao pequeno lugar de Vide, da freguesia da Rua, distante pouco menos de um quarto de légua do sítio onde se acha fundado o convento. A modéstia, pobreza, humildade e austera vida daqueles virtuosos e penitentes Terceiros fizeram sensível estimulo no coração de Gil Vasques, que, desenganado do mundo, abraçou o Instituto da Terceira Regra de S. Francisco, fazendo doação da sua Quinta do Paço a estes religiosos, por escritura celebrada em Caria, nas Casas do Tabelião Rodrigo Afonso, aos 28 dias do mês de Junho de 1443».

Quanto à estátua agora descoberta, tratos de polé ou descuidos acabaram por reduzir a imagem ao que hoje dela resta, não sendo fácil a sua reconstituição nem mesmo em desenho; constitui, no entanto, um testemunho, passível de ser preservado, dessa era, de importância maior para Vide.

Importa também referir que, na fachada principal desta capela, está embutida uma inscrição romana e na fachada lateral esquerda também se observa um silhar almofadado, sintomas claros da prístina ocupação humana do sítio.

Quanto aos fragmentos da escultura, caso não se consigam ‘estruturar’, poderão guardar-se mesmo assim, singela memória de uma das primeiras imagens a receber a devoção por parte dos habitantes.
(artigo em co-autoria com Gustavo Monteiro de Almeida e José d’Encarnação)




Qualquer texto que trate destas matérias – personalidades veneradas ao longo dos séculos, Irmandades, obras a elas ligadas – me fascinam, por isso o agradeço (ao texto) aos três autores.
Muito bem fundamentaram a descoberta de uma estátua de S. Francisco de Assis. Afinal houve uma instalação de franciscanos autenticada pela escritura feita em Caria. E o texto mais me aguça a vontade de saber sobre a actividade da Ordem fundada pelo santo e que ao longo dos séculos posteriores teve períodos de quase extinção e reactivação.
Investiguei um pouco S. Francisco de Assis e a sua acção, quando tratei da Rainha Santa Isabel e D. Dinis. Nessa altura tomei conhecimento, por uma pessoa próxima, que os homens da nossa família tinham pertencido à Venerável Ordem Terceira da Penitência de S. Francisco de Coimbra.
Ela tinha razão. Numa lista aparecem os nomes dos meus bisavô e irmão em 1889, não sei se altura da inscrição, e num trabalho do período entre 1851-1926, creio, vem o nome de um deles como secretário da Instituição.
Engraçado é reparar que, devendo os membos da Ordem observar a regra de austeridade de vida, muita humildade, apoio ao próximo, um deles cumpria rigidamente. O outro preferia a abundância, alguma sobranceria e não sei se a isenção de impostos ou a fuga ao serviço militar de alguém próximo.
O filho esteve na Iª. Grande Guerra, integrando o CEP, mas ele podia ter beneficiado das outras vantagens…
Nada sei, nem sobre as motivações que os levaram a integrar a Ordem. Mas se tiver ocasião, é uma matéria que tenho muita vontade de descobrir.
Só uma coisa me intriga nesta figura de pedra parcialmente (muito) danificada: S. Francisco de Assis faleceu aos 44 anos de idade. Aqui, ou pela amputação, ou por desconhecimento do canteiro que a talhou, parece bem mais idoso…