CASCAIS, BOAS E MÁS OBRAS

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A criação de espaços verdes constitui ponto de honra dos municípios. Promove-se a defesa do ambiente e augura-se que a população deles possa usufruir. Usufruirá?

De facto, tudo se conjuga para esse fim, cuja utilidade social não sofre contestação. A pergunta feita não será, porém, despicienda, porquanto há essa reflexão a fazer: estaremos a industriar as famílias para lograrem tempo de, no seu dia-a-dia, usufruírem de tais benesses? Quando sentimos tantos pais – e mães! – a necessitarem de ter dois trabalhos para fazer face às despesas quotidianas? Criar parques de lazer importa, sim; mais importante será, cada vez mais, criar condições para que, utilmente, o lazer aconteça.

Bandeira foi essa preocupação de todos os executivos municipais que ora terminam o seu mandato. Os que se propõem continuar realçarão nesse sentido o trabalho feito; os da oposição terão sempre hipótese de referir aspectos que, se tivessem sido poder, haveriam de ter contemplado.

Muitos parques em Cascais

Município claramente urbano, Cascais foi dos que mais terá beneficiado com essa politica, superiormente aprovada, de criar espaços de lazer e hortas comunitárias.

Veja-se, por exemplo, o que oficialmente foi escrito acerca da Quinta do Pisão, iniciativa de muito louvar, na verdade, «um paraíso com muitas vidas», como se designou:

«Não há buzinas, aviões a passar, nem ruído dos carris dos comboios. Pessoas também só se encontram aqui e ali, e o sinal da sua presença é abafado pelo chilrear dos pássaros e pelo vento que faz abanar a folhagem das árvores. Estamos na Quinta do Pisão, em pleno Parque Natural de Sintra-Cascais. São 380 hectares onde é possível andar a cavalo e de burro, colher legumes na horta biológica e até fazer um trilho do Cuquedo (inspirado no protagonista do bestseller infantil português – e que até faz parte do Plano Nacional de Leitura). Além do património ecológico, é possível visitar equipamentos recuperados pela Câmara Municipal de Cascais, como estábulos, eiras, poços ou mesmo os fornos que durante o século XIX ajudavam à produção de cal nesta zona. Os animais residentes vivem em modo livre, de cavalos e burros a ovelhas e cabras. Se estiver a pensar numa visita, explore a hipótese de se inscrever num passeio interpretativo, e consulte a programação que todos os meses está repleta de actividades».

Quinta do Pisão, passeios a cavalo
Quinta do Pisão, hortas comunitárias

Houve também – e outros exemplos se poderiam dar – a criação do Bosque do Livramento e um novo espaço verde no Alto da Pampilheira e em Matarraque.

«No total», lera-se, a dado passo, na página oficial da Câmara, «vão ser realizadas 17 intervenções no concelho que abrangem uma área global de mais de 300.000 metros quadrados e um investimento superior a 28,4 milhões de euros, parte dos quais financiados no âmbito do PRR – Plano de Recuperação e Resiliência. Todo o ar puro para uma vida com qualidade».

Não há bela…

Em época de campanha eleitoral, haverá sempre a procura do «senão» que pode obscurecer, mesmo que tenuemente, a aparência da «bela». E, assim, neste espírito de contribuir para sugerir temas de ‘conversa’, permitimo-nos escolher dois.

Prende-se o primeiro com o anúncio feito no início do Verão: «Em breve, Cascais vai contar com um novo espaço verde. As obras de reabilitação do local onde antes se encontrava uma bomba de gasolina na Avenida 25 de abril já arrancaram e, aqui, vai surgir um novo jardim conforme apresentado na imagem de projeto».

Espaço verde na Avenida 25 de Abril – o projecto

E logo o comentário (irónico, mas significativo): «Considerando que, 10 metros ao lado, destruíram um pinhal/espaço verde enorme para dar lugar a um mamarracho que consegue destruir o enquadramento de dois bons prédios com mais construção, conclui-se que este canteiro vai fazer toda a diferença!».

Do segundo tema já aqui se falou antes. Prende-se com o parque anexo à Casa-Museu Verdades de Faria, no Monte Estoril. Deu-se conta das dificuldades de entendimento dos serviços da autarquia com o organismo estatal que dá ordens nessa questão dos parques. Intitulou-se o artigo «O nosso voto por um jardim», em jeito de colocar o assunto nas preocupações do novo Executivo.

Na verdade, a situação do parque não honra ninguém. Daí não termos estranhado um comentário que, a título particular, nos chegou, veiculando, ainda por cima, uma novidade: a exigência fatal, agora, é da Câmara! Ora leia-se até ao fim:

«Infelizmente não temos tido grande sorte na defesa deste jardim, que deveria ser o grande pulmão do Monte Estoril. É para nós, moradores no Monte Estoril, uma frustração imensa ver a decadência deste espaço verde, pela inoperância assumida pelo executivo. Segundo ouvimos dizer, a posição do executivo camarário perante os serviços do ministério foi ‘ou nos deixam construir um parque de estacionamento ou deixamos cair tudo’.

Este espaço foi deixado por testamento à CMC para “casa museu”, mas também um jardim público. A CMC promoveu a classificação da casa e jardim. A Casa ‘herdou’, inclusive, o jardineiro do Senhor Mantero, que, enquanto esteve ao serviço da Câmara, cuidou sozinho deste grande espaço verde. No seu tempo, tínhamos um jardim denso, bem arborizado, com zonas de flores, com caminhos bem definidos, sempre limpos, que se cruzavam entre si, dando-nos uma sensação de maior extensão do que a área dos 5 mil metros quadrados. Hoje está tudo diferente, degradado, e deixou-se cair o projeto do jardim. Intencional?!!!

A posição do município não nos parece a mais correta e é inadmissível que se queira resolver um problema urbanístico à custa do jardim do Museu. Um parque de estacionamento?!!!».

Fim de citação.

Parque da Casa-Museu Verdades de Faria, fechado ao público

1 COMENTÁRIO

  1. E a destruição da Quinta dos Ingleses, 50 h em frente à praia de Carcavelos, para a construção de um condominio de luxo??? E o hotel Hilton abusivo ? um mar de betão e os cidadãos relegados para lá da autoestrada…

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