PIRATAS NO MEDITERRÂNEO

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A Flotilha Global Sumud, que juntou 50 barcos rumo a Gaza carregados com ajuda humanitária e que tencionam quebrar o bloqueio que Israel impõe à Palestina, voltou a revelar uma contradição gritante. Israel exerce um bloqueio marítimo que, à luz do direito internacional, não passa de uma extensão da ocupação ilegal da Palestina. No entanto, esse bloqueio é descrito por governos e meios de comunicação como uma “zona de segurança”, uma espécie de direito adquirido que ninguém ousa desafiar.

Espanha, Itália, Turquia e Grécia anunciaram medidas para proteger a Flotilha Sumud. À primeira vista, sinais de coragem. Mas, na prática, tudo é cuidadosamente limitado. Madrid enviou um navio militar, mas apenas para resgate ou apoio humanitário — não para escoltar até Gaza. Os navios de guerra romanos só vão até ao limite das 150 milhas náuticas, ainda em águas internacionais. Atenas garante segurança nas suas águas, mas sem navios de guerra no Mediterrâneo oriental. A Turquia é a única dúvida, mas ninguém acredita que faça mais do que os outros. No fundo, são compromissos simbólicos. Todos falam em princípios, ninguém se compromete com consequências.

Entretanto, Israel mantém a rotina. Vai abordar embarcações civis em alto-mar (pode já estar a acontecer enquanto escrevo estas linhas…), detém tripulantes de várias nacionalidades e confisca cargas de arroz, leite em pó ou medicamentos. Não há armas, não há contrabando. O que Israel faz, se fosse realizado por outro Estado, seria imediatamente classificada de pirataria. A diferença é que aqui a pirataria tem a “benção” do Tio Sam que, por estes dias, dá pelo nome de Trump.

As justificações de Telavive – “luta contra o terrorismo”, “segurança nacional” – não resistem a um teste jurídico sério. Gaza é território ocupado, logo o bloqueio é ilegal. E se o bloqueio é ilegal, também o é a interceção de navios civis em águas internacionais. O problema não está na clareza da lei, mas na falta de vontade política para a aplicar.

A Europa sabe que Israel não tem amparo jurídico, mas evita a confrontação. A proteção prometida aos cidadãos nacionais termina onde começa o risco de melindrar Telavive e, por arrasto, Washington. É por isso que vemos notas diplomáticas e navios de “apoio” cuja missão principal é não provocar.

O resultado é uma política de gestão de riscos: declarações firmes para consumo interno, gestos diplomáticos para marcar posição, mas nenhum passo que altere a realidade. Israel continua a controlar o mar de Gaza como se fosse seu, e a comunidade internacional continua a assistir, impotente ou cúmplice.

No fundo, a Flotilha Global Sumud é mais do que um gesto de solidariedade, é um teste ao sistema internacional. E até agora a resposta é clara. O direito internacional só vale até ao ponto em que não incomoda Israel. Depois disso, dissolve-se em cortinas de fumo.

Em Gaza, o genocídio dos palestinianos continua.

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