Depois de séculos a explorar recursos de todo o tipo – começando pela sistematização da escravatura – a Europa fecha agora as portas a imigrantes que fogem da fome e das guerras nos mesmos territórios que um dia colonizou. O legado da escravatura e da colonização deixou para trás países fragilizados, incapazes de concretizar um desenvolvimento humano sustentável. As fronteiras que os colonos traçaram no mapa separaram sociedades, etnias e famílias, sem qualquer correspondência com as realidades sociais ou políticas locais.
Quando a maioria dessas colónias conquistou a independência, sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, o que se seguiu não foi a liberdade plena, mas longos períodos marcados por guerras civis e conflitos internos. Muitas dessas lutas foram alimentadas pela Guerra Fria: de um lado, as antigas potências coloniais tentando preservar a sua influência contra os avanços da União Soviética e da China que tinham passado décadas a armar guerrilhas e movimentos de libertação.
A maioria destes países nunca teve a oportunidade de formar elites políticas e administrativas preparadas para promover o progresso, com raras e honrosas exceções. A instabilidade, a corrupção e a dependência externa tornaram-se marcas persistentes.
Hoje, quando homens e mulheres desses territórios chegam à Europa depois de sobreviverem a desertos e fronteiras hostis, depois de atravessarem mares a bordo de pequenos e frágeis barcos, encontram um muro invisível tão intransponível quanto qualquer barreira física. Não são vistos como vítimas de um processo histórico de exploração, mas como intrusos que ameaçam a estabilidade do continente. A narrativa dominante ignora que a sua fuga é consequência direta de séculos de saque e desestruturação.
Cinicamente, a política europeia concentra-se no “controlo das fronteiras” e na “segurança nacional”. E, ironicamente, muitos desses imigrantes chegam dispostos a desempenhar trabalhos essenciais, mal pagos e socialmente invisíveis, na agricultura, na construção, no lixo urbano, nos cuidados a idosos e crianças. Sem que saibam, são pequenas peças da velha “engrenagem” a funcionar: explorar ao máximo a mão-de-obra disponível, sem lhes conceder verdadeira cidadania ou igualdade de oportunidades.




