
O engenheiro José Sócrates sempre teve muitos rabos de palha. Desde logo, a própria licenciatura em Engenharia Civil, obtida na extinta Universidade Independente. Foi evidente, para quem quis ver, que o então deputado do PS teve um tratamento VIP na atribuição de notas. O célebre “exame de inglês técnico”, que circulou publicamente, tornou-se símbolo de um percurso académico construído à medida. Mas a investigação deu em nada, o processo foi arquivado. Ainda assim, o escândalo contribuiu para o encerramento compulsivo daquele estabelecimento de ensino, envolto em acusações mútuas entre os seus próprios administradores.
Em agosto de 2007, o ministro Mariano Gago ordenou o fecho da Universidade Independente. Os danos para centenas de alunos foram irreparáveis: os “canudos” obtidos ali perderam credibilidade, e licenciaturas completas foram deitadas ao lixo. Muitos foram repetir estudos noutras faculdades, outros fizeram mestrados noutras universidades.
Sócrates seguiu em frente. Foi para Paris “lavar” a licenciatura farsola com um mestrado em Ciência Política pela Escola Doutoral do Instituto de Estudos Políticos e publicou livros sob suspeita de terem sido escritos por um ghostwriter. Mas o Ministério Público investigava. Na noite de 21 de novembro de 2014, foi detido no aeroporto de Lisboa, vindo de Paris, à vista do país inteiro, num momento transmitido em direto pelas televisões.
Passaram mais de 10 anos. Só agora começou o julgamento. O caso, conhecido como “Operação Marquês”, tornou-se um emaranhado de processos, com dezenas de arguidos e centenas de testemunhas. A acusação inicial incluía 189 crimes imputados a 28 arguidos. Muitas dessas acusações foram, entretanto, abandonadas. Estavam em causa suspeitas de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal, envolvendo não só um ex-primeiro-ministro, mas também grandes grupos da construção civil, o BES – o maior banco português da altura – e uma das maiores empresas nacionais, a Portugal Telecom.
Já houve de tudo, desde arquivamentos decididos por um juiz de instrução, depois revertidos por instâncias superiores. Um labirinto judicial. Um circo mediático. E, acima de tudo, uma péssima imagem para a justiça portuguesa: lenta, contaminada por suspeitas, incapaz de dar respostas em tempo útil.


