Em Londres, uma grande parte da história britânica encontra o seu testemunho mais ou menos directo numa multiplicidade de monumentos que não só invadem espaços e tempos diferentes como frequentemente constituem um vibrante auto-elogio, próprio das grandes capitais imperiais. Assim pensava, a propósito dos arcos honoríficos romanos, um famoso arqueólogo britânico, Mortimer Wheeler, com cuja obra tomei contacto em 1968, durante uma estada no Dondo, sobre outro rio também com alguma história, o Quanza ou Kuanza, como quiserem. Sem querer desviar-me da linha de rumo deste Duas Linhas ocorre-me pensar que a história, como se vê e verá, não segue uma linha recta, antes entrecortada por caminhos transversais e não poucas encruzilhadas, com encontros e desencontros.
Como é possível evocar Cleópatra, a sétima desse nome, última trágica rainha da dinastia macedónica do Egipto do século I a.C., nas margens de um rio inglês? É claro que os egípcios antigos nunca por ali andaram, a não ser, talvez, como marinheiros de algum navio romano do tempo dos Césares. Sobre Cleópatra e seus amores calculistas (?) já se disse tudo ou quase tudo, até o inconcebível. Todos a conhecemos, tão divulgada tem sido, em contextos tão diferentes como o drama de Shakespeare António e Cleópatra ou as renomadas e falsas criações hollywoodescas. Mas em Londres, Cleópatra? Vejamos pois a história do obelisco que os londrinos apelidaram de Agulha de Cleópatra e que se ergue indiferente à mudança de clima e de políticas, junto ao rio, no Victoria Embankment, celebrando outra rainha não menos famosa.

Este monumento faz parte de uma série numerosa de outros obeliscos trazidos do Egipto para solo europeu como símbolos de triunfo imperial, como os vários que se encontram em Roma e cujo transporte representou ele próprio um triunfo náutico e de engenharia. Tudo muito simbólico, como convinha. Mais estranho é quando se encontram a decorar propriedades privadas, como o obelisco de Philae, em Kingston Lacy, na Inglaterra. Em Nova Iorque, no Central Park encontra-se outro obelisco, também com o mesmo apelido de Agulha de Cleópatra. É egípcio, tanto faz e enquadra-se bem no prelúdio de uma sucessão imperial latente e que mereceu de Kipling o célebre poema The White Man’s Burden.Voltarei a falar dos obeliscos e dos seus exílios, prometo.
Também em Portugal tivemos reflexos do fascínio pelos obeliscos, mas como nunca controlámos a sua região de origem contentámo-nos com imitações, como o dos Restauradores, em Lisboa, ou o de Faro. Os obeliscos de Londres e de Nova Iorque foram levantados em Heliópolis, perto do Cairo, pelo Faraó Tutmés III, que viveu no século XIV a.C., muito antes da famosa Cleópatra de notável nariz e não menos ambiciosa política, que os fez deslocar para Alexandria. As inscrições hieroglíficas, acrescentadas por aditamentos de Ramsés II, useiro em reutilizar monumentos, não deixam dúvidas.

A ida do obelisco para Londres, a partir de Alexandria, representou uma aventura cheia de histórias. No porto egípcio construiu-se uma espécie de contentor flutuante em torno do monumento, após o que se seguiu o transporte a reboque através do Mediterrâneo e depois pelo menos respeitador Atlântico. No mal-afamado Mar Cantábrico uma tempestade, que causou vítimas, obrigou a cortar o reboque e o obelisco andou à deriva vários dias até à sua recuperação, chegando finalmente a Londres onde foi inaugurado em 1878. E lá está, atingido por estilhaços de um bombardeamento aéreo da I Guerra Mundial e guardado por duas hieráticas esfinges, olhando com ironia do alto dos seus trinta e quatro séculos as ilusões a que se chamam impérios. Saberemos nós, neste estranho século XXI, responder às perguntas das esfinges? E agora, que império procuramos?
Outro monumento londrino da zona ribeirinha é o memorial da rainha guerreira Boudica, bela ilustração em bronze do ethos imperial britânico, então em pleno apogeu.

O grupo escultórico, da autoria de Thomas Thornycroft, colocado em 1902 no Westminster Pier, celebra a rainha dos Icenii que chefiou em 60-61 uma revolta extremamente violenta – na qual Londres foi arrasada – contra os invasores romanos, levantamento originado por desrespeito pelo testamento do rei anterior, seu marido, e pela violação das duas filhas, belas jovens também presentes na biga do monumento. A revolta pôs em causa o ainda pouco consolidado domínio romano na Britânia, com as habituais violências extremas e consequente pacificação. De que lado devemos estar? É evidente que o historiador deve relatar com imparcialidade, sem esquecer que já os cronistas hititas consideravam a relação entre causa e efeito.
Logicamente, a revolta foi esmagada em 61, mas Nero chegou a considerar o abandono da Britânia. A infeliz Boudica desempenhou, no imaginário reflectido no seu monumento anacrónico, a mesma função de Viriato ou de Vercingetórix, derrotados mas vencedores pelas qualidades atribuídas ao povo do futuro. E que futuro realizado, o dos britânicos nos últimos anos da Belle Époque! Lá está o poema de William Cowper para o afirmar e agora apenas o lembrar, tudo achincalhado pela quinquilharia oferecida aos turistas passantes numa banca encostada ao memorial, onde Boudica e as suas filhas, no seu carro de guerra, continuam indiferentes, indiferentes, como convém a quem esteve fora do tempo e assim continua. Não precisamos todos, aliás, de estar por vezes fora do nosso tempo? Talvez por isso eu prefira permanecer com Gordon Paxá, em Cartum.
Abandonemos o Tamisa com a visão desencantada que dele nos deixou Joseph Conrad, homem que conhecia bem o sistema colonial da época, descrito sem concessões mas sem esquecer o que é próprio da natureza humana. Sentimo-lo, por isso, mais perto de Boudica que dos europeus seus contemporâneos, ao imaginar o que sentiriam os romanos na paisagem sombria e desprovida de urbanidade mediterrânica da região, instigadora de violências de todo o tipo a quem está de passagem e quer amealhar pecúlio e a quem se quer defender. Não estranhamos, pois, que o historiador escocês Alistair Moffat se refira da mesma forma negativa à presença romana e ao Império que tanto inspirou os britânicos. Moda ou convicção?
Há alguns anos visitei, perto de Norwich, o sítio arqueológico da antiga Venta Icenorum, hoje Caistor Saint Edmund, sede romanizada dos Icenii, onde pastava pacificamente no espaço outrora ocupado pela cidade, espaço desprovido de vestígios monumentais, um rebanho de ovelhas, o que me dispensa de desenvolver qualquer reflexão histórico-filosófica. Ao tempo o que é do seu tempo.




