OS CINCO NUMA AVENTURA EM PORTUGAL

Continuando a singrar pela via das biografias, Isabel Nery, depois de nos ter brindado com a vida da poetisa Sophia de Mello Breyner (3ª edição, em 2019), decidiu documentar-se sobre os fautores da Revolução de Abril e dessa miúda investigação nasceu o livro Os 5 Homens que Mudaram Portugal para sempre, numa edição da D. Quixote (2022). São 312 páginas sobre as vidas, «do berço à democracia», de Mário Soares, Sá Carneiro, Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral e Ramalho Eanes.

0
1161

«Mais um livro sobre a revolução», agora que estão quase a comemorar-se os 50 anos desse nosso grito de liberdade – poderá objectar-se. Já não sabemos tudo o que se passou e como se passou? Quantos documentários, quantos livros, séries televisivas mais ou menos romanceadas, até filmes!…

Sim, a objecção tem razão de ser, atendendo, inclusive, ao facto de cada um desses senhores já ter circunstanciada biografia própria, tintim por tintim, como foi em pequeno, que educação teve, como é que entrou para a política, onde estava quando se deu a revolução… Sim, porque nenhum – ainda que «revolucionário», convenhamos! – esteve na Revolução. Serviu-se dela ou foi a revolução que cada um deles, à sua maneira, soube servir e reforçar?

A objecção atrás ameaçada – «mais um…» – depressa se desvanecerá, porém, logo após as primeiras páginas de leitura. Aliás, diga-se desde já, essas primeiras páginas não serão poucas, de certeza, que a narrativa logo nos prende e queremos saber mais e mais!

Nesse aspecto reside o saber de Isabel Nery, que já com o ensaio Vida Interrompida (recorde-se a exposição alusiva na Casa de Santa Maria, em Cascais, Abril de 2011) e, de modo especial, com Chorei de Véspera – Ensaio sobre a Morte por Amor à Vida (A Esfera dos Livros, 2016) nos cativara já. E o segredo reside no facto de, embora ‘historiadora’ no sentido técnico do termo, porque escreve História, Isabel Nery tem atrás de si a longa experiência da reportagem jornalística, o convívio perene com pessoas reais, do quotidiano, um convívio de que ela bem sabe trazer para a escrita emoções, tristezas, vidas!…

Temos, pois, aqui as vidas destes cinco homens. E isto significa que os vamos acompanhar a par e passo – por quanto à investigadora foi dado saber e, de facto, Isabel Nery tudo esquadrinhou – desde pequeninos até à morte (com excepção, evidentemente, de Ramalho Eanes, que é nosso voto, e de todos, que entre nós se mantenha ainda por muitos e bons anos).

Como assim? – perguntar-se-á.

E é aqui que se insere o saber-fazer jornalístico. Mário Soares entrou e saiu daquela reunião: como é que estava vestido? Vinha sorridente? Quem lhe estava ao lado, quando falou aos jornalistas? Exacto: são esses os pormenores que, de ordinário, escapam e que Isabel Nery, vendo e revendo documentários, noticiários, reportagens de todo o género, não deixou escapar e no-los apresenta. Parece, pois, que voltamos atrás, rebobinámos as cenas… E os cinco homens tornam-se homens ‘verdadeiros’, com emoções, sarcasmos, zangas, alegrias…

Retratos, pois – e, por isso, não duvidamos que, em 2024, amiúde esta obra vá ser referida e, até, venha a ser objecto de aprofundada análise, porque para ela se acarreou material que baste para tal aprofundamento.

Recortem-se, apenas em jeito de aperitivo, duas ou três passagens, sem comentários (que os quero deixar ao leitor).

Álvaro Cunhal pede a Mário Soares que agilize a entrada em Portugal dos descendentes de comunistas; não lhe diz, porém, que nesse mesmo voo viajava a sua filha, Ana Moreira; Mário Soares mostra-se desagradado. E a autora comenta:

«O ato (…) era uma forma de estar para Cunhal. Premeditada, dirão uns. Espontânea, argumentarão outros. Fruto de uma vida – o líder comunista tem 60 anos quando se dá o 25 de abril – a treinar-se para se esconder e não para se revelar, cogitarão os mais analíticos» (p. 147).

«Se 1973 foi o ano em que tudo se alinhou para derrubar a ditadura, 1974 o ano da revolução e 1975 o ano da clarificação, 1976 seria o ano de todas as eleições. Uma espécie de certificado de que tinha valido a pena, apesar de tudo» (p. 268).

Sobre Cunhal: «Quando reaparece é já um sexagenário coberto de branco. Os portugueses nunca o conhecerem jovem. E o próprio Cunhal provavelmente também não. Pesado pelo sofrimento, hirto pelas convicções, misterioso na solidão» (p. 288).

«Soares foi persistência, Cunhal, resistência. Sá Carneiro, ímpeto e vontade de vencer. Soares queria mais Estado do que Sá Carneiro. Eram diferentes e queriam coisas diferentes, mas juntaram esforços contra Cunhal e a sua visão de uma democracia popular. Eanes foi equilíbrio, mesmo no desequilíbrio. Freitas do Amaral, enquadramento jurídico em tempo de revolução, e centrismo depois dela. A todos uniu o fim da ditadura. A alguns dividiu o conceito de democrata» (p. 292).

Para agilizar a consulta, há utilíssimo índice onomástico (p. 293-300); rol das siglas utilizadas; das fontes se indicam os testemunhos ouvidos e os arquivos consultados (p. 301-302); na bibliografia, citam-se livros, artigos saídos na imprensa, «Outros», sites/pesquisa online e o filme da RTP Os Homens sem Sono.

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/os-homens-sem-sono/

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui