A VIDA TAL COMO ELA É

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«A minha vida dava um filme!» – declara, perentoriamente, quem, em jeito de conclusão de narrativa autobiográfica, está convencido de que passou por situações tão fora do comum que são susceptíveis, por isso, de interessar muita gente.

Multiplicam-se os livros de memórias e os registos autobiográficos. Interessantes e eloquentes, uns, retratos pessoais e duma época; corriqueiros, outros, só para consolo do próprio narrador.

«Os espinhos no caminho na vida de Roger», de José António Gonçalves, situa-se, porém, num outro domínio. É edição de autor, livrinho mui singelo de 28 páginas, publicado há três meses, ilustrado com fotografias tiradas pelo próprio, significativas do seu estado de espírito.

Roger é o seu alter ego, como se diz. É ele e não é ele. A vida que ali se narra foi a dele, é a dele e não se importou de a expor, com todos os muitos ‘baixos’ por que passou. Para mostrar que – com força de vontade e o apoio (nunca recusado!) da família – é possível escapulir-se dum vale escuro e subir, a pulso, a encosta, por mais íngreme e pedregosa que seja, até ao cimo mais luminoso.

«Se continuar a beber» – é reflexão exarada na página 18 – «só existem, três destinos:

– Ir para a prisão, porque, sob o efeito do álcool, pode fazer alguma coisa que poderá ser fatal.

– Ir para um hospital de deficientes mentais, porque o álcool levou-o à loucura.

– Ir para o jardim que irá tomar conta do seu corpo e Deus da sua alma».

E José António Gonçalves lutou. O seu jardim é outro agora.

Para já, quis dar testemunho. Dizer que foi trompetista aquando do serviço militar; que, em orquestras típicas, tocou o bandolim por ele próprio construído…

Depois, aposentado já da Câmara Municipal de Cascais, onde esteve encarregado do viveiro de plantas, entrega-se agora, com paixão, a esculturas de madeira, plenas de ingenuidade e talento, pois logo aos 11 anos foi trabalhar para uma carpintaria e aí aprendeu o ofício.

Neste caso, por conseguinte, o «filme» da vida pode ser – deve ser! – fermento de outras vitalidades! Como escreve na nota final:

«Se acha que precisa de ajuda, perca o orgulho, deite a toalha ao chão e aceite!!!!».

artesanato de José António Gonçalves

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