Faz-me uma crónica!

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Mexia na popa do cabelo à Tim Tim, voz de criança: “Faz-me um crónica, vá lá! Faz-me uma crónica”. Insistiu, persistiu, fiz cara de má e, mesmo assim, não desistiu.

A ideia era clara para ele. Um texto a elevar ao rubro as suas imensas virtudes (que as tem) e ainda uma abordagem à sua tese de mestrado. Eu que não me preocupasse, ele dar-me-ia informação detalhada. Quanto aos defeitos (que os tem) não fez nenhuma referência…

“Faz-me uma crónica, vá lá!”. Ok! Já não posso ouvir-te mais!

Nestas festas dos Santos Populares resolvi fazer uma experiência antropológica. Saí à rua com o meu saco térmico, com rodinhas, lá dentro minis e águas frescas entre cubos de gelo. O dia era fraco, as pessoas também. Nas três primeiras abordagens, olharam-me com desdém. Um deles, vestido com uma indumentária de marca da cabeça aos pés, virou-me a cara. Será que pensou que era uma agarrada a pedir dinheiro? Ou então uma agarrada a vender minis para conseguir dinheiro para a droga?

Não vendi uma única mini mas, quando já tinha desistido, encontrei um grupo simpático a cantar em harmonia no relvado do Jardim da Cerca da Graça. Oito minis, boa onda, até dancei!

Comprei depois um pack de 25 minis, isso mesmo, ia fazer negócio à séria! Mas, do nada, apareceu à porta o Diogo, o tal que quer que lhe faça uma crónica, e o João! Surpresa! Conversa interminável, as minis desapareceram, não podiam ter tido melhor uso.

E chegou a noite de Santo António. Lisboa ao rubro, gente e mais gente, putos e mais putos, todos a flanar. A obrigatória música pimba que fica no ouvido, o cheiro a sardinhas, a cor dos arraiais, os manjericos, a alegria de quem nelas trabalha e de quem as frequenta. As festas de Lisboa são  a altura mais bonita do ano. Na rua!

Fiz o negócio quase todo num ápice e constatei com gosto que as pessoas que declinavam disseram sempre um obrigado, em particular os mais novos. Restabeleci a minha fé no futuro da Humanidade.

Sobravam ainda duas minis. Avistei dois policias municipais. Com descaramento perguntei se queriam as duas últimas. Quiseram! Foi o início de uma longa conversa, assuntos divertidos, outros mais sérios. Quando acabava a jola, estava incumbida de ir buscar mais uma rodada que eles fizeram questão de oferecer. Foi assim até ao lusco-fusco. Ainda não acredito que passei a noite de Santo António à conversa com a bófia.

Acabei por aqui a experiência. Tempo suficiente para constatar como há tanta gente a fazer má cara àqueles que, como eu, fizeram ou fazem um trabalho menor, marginal. Questionei-me: será que se estivesse vestida com Dolce & Gabbana e uma mala Louis Vuitton teria sido diferente? Poderia pedir até 2 euros por mini! Mais, 5 euros por mini! A experimentar para o ano, acaso alguém me empreste uma dessas malas tão feias.

O que interessa agora é que vem aí o São João, o solstício de Verão e o aniversário dos pobres coitados que celebram 50 anos. Cotas!

Quanto ao Diogo é um homem interessante, bonito, (vaidoso também) e está à beira de defender a sua tese de mestrado. É psicólogo, músico, toca em várias bandas, tem muitos interesses e é um chato, um grande chato. Mas tem esta capacidade de me fazer sempre rir, o que desperta em mim o desejo de lhe fazer uma crónica.

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