Joaquim: sentou-se à mesa com o peso de quem carrega o mundo nos ombros. Os seus olhos, fixos no horizonte onde o Tejo se confunde com o céu, pareciam ver para além da água. «Sinto-me numa prevista e estranha forma, Fernando», confessou, com a voz embargada pela lucidez. No silêncio daquela tarde, admitiu a sua maior derrota: a mentira que pregava ao estranho que o habitava. Não sentia o que desejava sentir; era, em toda a sua essência, um pecado arrogado perante a própria existência.
Pessoa: (Ajustando os óculos, com um sorriso pálido) Ah, meu caro Joaquim… mentir ao que se sente é a primeira condição para se ser verdadeiro. O erro não está na mentira, mas na crença de que existe um “eu” sólido a quem não se deve mentir. Dizes que és um “pecado arrogado”? Eu diria que és apenas uma multiplicidade que se ignora.
Joaquim: Mas eu dou-me sem sentidos! Reconheço em tudo a consciência de mim, e é nesse reconhecimento em que me perco. Esqueço quem sou… por carácter.
Pessoa: Precisamente! O carácter é a máscara que nos permite esquecer a vacuidade do rosto. Se não esquecêssemos quem somos, como poderíamos suportar a monotonia de ser apenas uma coisa? A consciência de si é uma lucidez que cega. Tu relanças horizontes numa infinidade profunda porque a tua dúvida desperta sem ser vista. É a dúvida, e não a fé, que move os moinhos da alma.
Joaquim: Sim, mas eu assevero o idílico servo pela minha própria vontade. Conservo as razões, Fernando, mas recuso-me a ancorar na dúvida. Quero a obstinada certeza, mesmo que seja uma construção do meu desejo.
Pessoa: (Inclinando-se para a frente, interessado) Queres a certeza? Cuidado. A certeza é um porto, e o porto é o fim da viagem. Tu propões ao medo um segredo — isso é magnífico. Arrancar a alma ao medo é o único modo de viver esse “curto tempo de saber”. Mas dizes que ousas gestos tímidos sem que a vontade seja ousada… porquê o medo da ousadia?
Joaquim: Porque a vontade, quando é demasiado ousada, destrói o mistério. Prefiro o gesto tímido, o “idílico servo” que guarda o segredo. Vivo a vontade de saber, mas temo que, ao saber tudo, não reste nada de mim além de “poucas palavras”, como escrevi outrora sobre a minha cidade.
Pessoa: Compreendo-te. O saber é um deserto. Ficamos com o adorno de tudo, mas por baixo do fato desenhado pelo giz do mestre, o que resta é o sol modesto. Não temas as tuas “poucas palavras”, Joaquim. O universo inteiro cabe num verso curto, desde que esse verso seja a tua Lisboa, a tua “estranha forma”. No final, mudam-se os tempos e as vontades, mas o que definha em nós é o que nos torna eternos.
Joaquim: Então, basta-me o segredo?
Pessoa: Basta-te ser. E, se ser for pouco, basta-te fingir que és, até que a consciência de ti se canse e te deixe, finalmente, ser apenas um verso escrito no fumo deste café.



