Karim Khan caiu. Oficialmente, por alegada “má conduta grave”. Politicamente, há uma coincidência que merece reflexão. O procurador do Tribunal Penal Internacional que ousou pedir a detenção de Benjamin Netanyahu acabou afastado na sequência de acusações de abuso sexual. Não cabe discutir aqui a sua culpa ou inocência. Mas é impossível ignorar o momento em que tudo aconteceu.

É inevitável recordar Julian Assange. Também ele foi acusado de crimes sexuais pouco depois de revelar documentos que expunham crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão. As acusações acabariam arquivadas, mas serviram para o manter privado da liberdade durante anos.

Não afirmo que as denúncias contra Khan ou Assange fossem falsas. Afirmo apenas que, nos dois casos, o debate deixou de ser os crimes de guerra para passar a ser a vida privada dos seus protagonistas. A atenção pública mudou de alvo.
Curiosamente, a regra parece deixar de funcionar quando o visado é Donald Trump. Também ele enfrentou uma sucessão de processos judiciais e acusações pessoais. A diferença é que nunca foi politicamente neutralizado. Pelo contrário: transformou os tribunais em palco eleitoral e regressou à Casa Branca.

Este triângulo Assange – Khan – Trump mostra como a justiça pode ser usada como arma política. Mas a sua eficácia depende de quem ocupa o banco dos réus. Assange denunciou crimes de guerra e acabou a defender-se de acusações sexuais. Karim Khan investigou crimes de guerra e vai ter de se defender de acusações sexuais. Trump foi acusado de crimes sexuais e acabou a denunciar perseguição política. Por estas trajetórias adivinhamos como a justiça não consegue permanecer imune às disputas de poder.
*O triângulo isósceles é aquele que tem dois lados iguais. Ou o que tem um lado desigual.



