A leitura de A Mulher Fatal deixou-me uma curiosidade por resolver: a reconhecida influência da cultura francesa na sociedade e na literatura portuguesas da 2ª metade do século XIX. E decidi ilustrar-me com a integração no seu tempo de três das passagens que recortara.

Manon Lescaut
«Imaginei que ele estivesse alapado na tulha das Açudes, lendo alguns capítulos paradoxais de Manon Lescaut, ou quejando romance justificativo das paixões ignóbeis!» (p. 62).
Refere-se Camilo ao célebre romance de Antoine François Prévost, Histoire du chevalier des Grieux et de Manon Lescaut (1731), cuja heroína é precisamente Manon Lescaut, romance citado habitualmente apenas como Manon Lescaut.
Trata-se de um romance muito polémico , dado que Abade Prévost faz o leitor sentir enorme simpatia por duas personagens que, objetivamente, vivem fora da moral tradicional: Des Grieux mente, joga, rouba; Manon aceita presentes de amantes ricos; ambos vivem uma paixão que desafia a ordem social e religiosa. Muitos moralistas do século XVIII e do XIX censuraram precisamente isso: o romance parecia justificar o vício pela força do amor.
Mas… por que razão fala Camilo em «capítulos paradoxais»? Decertoaqueles em que Prévost consegue levar o leitor a admirar personagens moralmente condenáveis. Quiçá, uma irónica crítica, aqui, aos moralistas, que, por esse motivo, consideravam tais capítulos “paradoxais”.
Henri Heyne
«Que anjo naquele homem restituiria a Deus a sociedade, se ela não fosse em toda a parte, o inferno dos anjos e o paraíso dos demónios, como, da de Paris, dizia Henri Heyne! (p. 63).

A frase citada é, na verdade, frequentemente atribuída ao alemão Heinrich Heine (Henri Heyne na grafia francesa do apelido). Trata-se seguramente de uma paráfrase do pensamento de Heine sobre Paris, uma citação apócrifa que se não encontra ipsis verbis na sua obra, nomeadamente em Französische Zustände («Situação da França»), em Lutetia ou na correspondência. Heine viveu em Paris de 1831 até à morte; para ele, Paris era o centro da inteligência, da liberdade e da modernidade, mas também um lugar de corrupção moral e de tentações. De resto, a antítese «o paraíso de… / o inferno de…» foi um recurso retórico muito usado no século XIX.
Poder-se-á acrescentar que, não sendo uma citação literal, e como Camilo lia abundantemente jornais e revistas francesas e recorria frequentemente a florilégios de citações e como, por outro lado, Heine era um dos autores mais citados nesses repertórios da década de 1850-1870, tal é bem provável. Aliás, Heine morreu em 1856 e, entre 1856 e 1870, publicaram-se em França numerosas edições póstumas, colectâneas e memórias sobre ele: Pensées de Henri Heine, L’Esprit de Henri Heine, Œuvres choisies. Camilo podia muito bem ter lido uma dessas obras, em que Heine descreve a vida social parisiense, sobretudo os salões, a aristocracia, os meios literários e políticos.
Stendhal

«Na verdade, eu havia apostolado tão incompetente quanto inconvenientemente a contrição dos pecados. Demasiei-me, talvez, em desluzir-lhe as cristalizações do amor, formadas naquela alma, ramo desflorido e seco, submerso no lago congelado, conforme a teoria de Stendhal. A meu ver, cristalizações de lágrimas só o calor da mortalha as degela (p. 118).
Deveras curiosa a alusão à «teoria de Stendhal». A ideia é uma das mais célebres de Stendhal e encontra-se no capítulo II, sobre o nascimento do Amor, do ensaio De l’Amour, publicado em 1822. A imagem não é, porém, a de um lago gelado, mas a de um ramo seco mergulhado nas minas de sal de Salzburgo, onde fica revestido de cristais brilhantes:
«Nas minas de sal de Salzbourg, deita-se, pelo Inverno, nas profundezas abandonadas da mina um desfolhado ramo de árvore, dois ou três meses depois, retira-se recoberto de cristalizações brilhantes […]. Já não é possível reconhecer o ramo primitivo», escreveu Stendhal.
Não pode, porém, deixar de apreciar-se como, aparentemente, singelos e despretensiosos apontamentos encerram em si tamanha densidade ideológica.
Camilo Castelo Branco é isso mesmo: uma fonte de saber inesgotável. Escrevia romances para economicamente sobreviver; mas é na análise miúda do que escreveu que reside a razão da sua sobrevivência como um escritor de todos os tempos.



