Não fiquei desiludido, porque o retrato se me antojava, mais ou menos, como Camilo o descreve, com ares respirados em Paris, vestindo-o de roupagens voluptuosas, atraentes, perfumes fortes, olhar felino. E, por outro lado, insaciável devoradora de fortunas, depois que a tal a obrigava a sua intensa vida social no meio da burguesia lisboeta ou da fidalguia que não hesitava em arruinar-se em vassalagem à Beleza.
O protagonista, Carlos Pereira, vai de amor em amor, sofredor e desastrado a maior parte das vezes e cai, por fim, mas mãos peçonhentas de Cassilda Arcourt, mesmo depois de – na verdade – ter logrado uma existência aparentemente viável.
Mais do que uma vida campestre, o narrador – amigo e confidente do protagonista – delicia-se a contar das desgraças alheias no ambiente que apresenta como sendo o da Lisboa desses meados do século XIX.
Recorde-se que Camilo Castelo Branco nasceu em 1825 e este livro foi publicado em 1870, ou seja, quando o autor se considerava já velho de 45 anos.
Confesso que, sendo eu epigrafista e estudar epitáfios romanos em que se lavra a idade em que a morte ocorreu, esse foi o primeiro aspecto que mais me impressionou. Camilo, aos 45 anos, considerava-se velho, dando a entender ser mesmo essa a percepção das pessoas nessa altura. E o protagonista, Carlos Pereira, que ele diz ter conhecido em 1849, tinha 32 anos em 1857. «Em vinte anos», comenta Camilo, «enfolha, enflora, fruteia e fenece uma geração […] E alguns tinham pavor da velhice dos 40 anos!» (p. 22 – estou a seguir a edição de Livros de Bolso Europa-América, nº 292).
Do ambiente burguês da capital os traços camilianos são os costumados: alojamento em hotéis, recepções em casa de amigos, noites de tavolagem, uma sociedade de expedientes, em que se antoja amiúde a compra de um título de Conde ou Marquês. Em relação à província, a figura que não se oblitera é a do padre sempre ganancioso, frequentemente a quebrar as juras do celibato.
Enganar-me-ia, contudo, se não alvitrasse ter sido a sua linguagem tersa, riquíssima, incisiva e pura o que mais me encantou, não só porque não hesitou em dar conta, aqui e ali, dos livros que se liam (que ele lia), sobretudo franceses, como se sabe, mas, de modo especial, pela sua exemplar sujeição à vernaculidade:
«Um homem que saíra em rapaz para África e lá vivera em navios, e sertões, e portos de mar, veniagando as suas mercadorias de carne viva com alma e feitio à semelhança do Criador» (p. 27).
Quase se esquece, por detrás das palavras, o seu significado: o homem foi… um negreiro!
«O milionário que se dói do ultraje compra diplomas de estima pública; isso é fácil: dê banquetes, embriague os convivas para a vertigem do baile; lá irá tudo, desde a honra que se vendeu até à honra que se almoeda» (p. 29).
Só esmiuçando se enxerga bem o que ele quer dizer: corrupção!
Aqui e além, uma nota erudita, não desprovida de carga irónica:
«Imaginei que ele estivesse alapado na tulha das Açudes, lendo alguns capítulos paradoxais de Manon Lescaut, ou quejando romance justificativo das paixões ignóbeis! (p. 62).
Ou ainda:
«Que anjo naquele homem restituiria a Deus a sociedade, se ela não fosse em toda a parte, o inferno dos anjos e o paraíso dos demónios, como, da de Paris, dizia Henri Heyne! (p. 63).
O toque crítico à mudança da toponímia das cidades por razões políticas:
«Quem se lembra já hoje da Rua do Coruche? Há doze anos que passou por ela o Progresso, esse iconoclasta implacável que subverte as coisas santas da religião artística de antiquários e poetas. O Progresso é barrigudo, não cabe em ruas estreitas. Aquela, a do Coruche, levou-a ele diante de si; e, como às cavaleiras desse pujante demolidor andem os bons progressistas para darem o seu nome às empresas que ele comete, aquela rua das minhas saudades ficou-se chamando do Visconde da Luz» (p. 64).
Neste caso, é de Coimbra que se fala, mas tal visconde teve nome de rua um pouco por toda a parte.
Não falta uma crítica que, de repente, té poderia arvorar-se agora:
«Não se restauram patrimónios a estudar: extinguem-se. E, concluída uma formatura em Portugal, quem a comprou com o seu trabalho e todo o seu haver, sente-se apenas habilitado para ir mendigar um ofício de quatro libras mensais às portas das secretarias» (p. 68).
É bem conhecido o hábito, no século XIX, mormente na sua segunda metade, de os burgueses comprarem títulos de nobreza. Falando em cem contos, declara o protagonista:
«A mim convinha me possuí-los, para comprar um título de marquesa para Estela» (p. 69).
Voltando à vernaculidade da linguagem, não hesito a transcrever mais uma passagem em que a negativa está presente de forma, a meu ver, bem airosa: o uso corrente do prefixo des-, patente, noutras passagens, em despenar, desvalidar, desafecto e que – disso nem sempre nos damos conta – também existe em despedir e desconfiar. Ora veja-se:
«Na verdade, eu havia apostolado tão incompetente quanto inconvenientemente a contrição dos pecados. Demasiei-me, talvez, em desluzir-lhe as cristalizações do amor, formadas naquela alma, ramo desflorido e seco, submerso no lago congelado, conforme a teoria de Stendhal. A meu ver, cristalizações de lágrimas só o calor da mortalha as degela (p. 118).
Tudo imagens para se declarar arrependido de haver incitado Carlos a largar a amante e a voltar para a mulher que, no final de contas, ainda amava.
Camilo, um Mestre!



