Há qualquer coisa de desconcertante em Roger Waters. Aos 82 anos, quando poderia viver confortavelmente da herança dos Pink Floyd, reaparece para reescrever Comfortably Numb, uma das canções mais emblemáticas do século XX. Não para a atualizar musicalmente, não para explorar a nostalgia de uma geração, mas para lhe dar uma nova vida política. Desta vez, a canção é dedicada ao povo palestiniano e à destruição de Gaza.
Não deixa de ser um gesto curioso. A versão original, integrada em The Wall (1979), era uma viagem ao interior de um homem emocionalmente anestesiado. A “dormência confortável” era uma metáfora para a alienação, para o trauma, para o isolamento de quem já não consegue sentir plenamente o mundo à sua volta.
Na nova versão, a anestesia muda de destinatário. Já não é um indivíduo que perdeu a capacidade de sentir. É uma sociedade inteira que parece habituar-se às imagens da guerra, aos escombros, às crianças mortas, aos hospitais destruídos e à normalização do horror. A insensibilidade deixa de ser psicológica para se tornar moral.
É uma inversão forte. Em 1979, a pergunta era: “Como é que um homem chega a este estado?” Em 2026, a pergunta é: “Como é que nós chegámos a este estado?” A intenção de Waters é clara: impedir que a repetição das imagens produza indiferença. Recordar que a capacidade humana de se habituar ao sofrimento alheio pode ser uma das mais perigosas formas de anestesia coletiva.
Mas também é interessante tentarmos perceber o que leva um octogenário recusar a tranquilidade da reforma para continuar a meter-se em batalhas que dividem a opinião pública e lhe garantem mais críticas do que aplausos? A resposta não está no dinheiro. Nem na fama. Nada disso é preocupação para um homem com a carreira feita há muito tempo.
Há pessoas para quem a arte nunca foi um lugar de conforto. Sempre foi um lugar de combate. Quem se lembrar de outras músicas de Roger Waters talvez perceba que o músico sempre fez da música um instrumento de confronto com a guerra, o poder, a propaganda e os mecanismos de manipulação. Há nisto uma coerência rara num artista que, mais de cinquenta anos depois, continua a correr riscos para defender aquilo em que acredita.
Na verdade, para além de coragem e coerência, a idade deu-lhe também essa liberdade. Quando já não existe uma carreira para proteger, uma editora para agradar ou um mercado para conquistar, desaparece também uma parte significativa do medo. A proximidade do fim da vida não leva necessariamente à resignação. Em alguns casos, produz exatamente o contrário: a urgência de dizer aquilo que sempre se considerou essencial.
Há quem procure paz. Outros procuram sentido. E há pessoas que nunca se reformam daquilo que são. Um professor continua a ensinar, mesmo sem sala de aula. Um cientista continua a fazer perguntas. Um escritor continua a escrever. Um músico continua a compor. Gente que teima em tentar mudar o mundo e que nunca se reconheceriam no espelho se deixassem de tentar.
A nova Comfortably Numb acaba por ser mais do que uma canção sobre Gaza. É um manifesto contra a indiferença. Neste tempo em que a informação circula à velocidade da luz e a emoção dura apenas alguns segundos, o maior risco não é a violência. É habituarmo-nos a ela.
Roger Waters parece acreditar que o pior destino não é sentir demasiado. É deixarmos de sentir. E essa continua a ser, quase meio século depois, a verdadeira mensagem de Comfortably Numb.




