CAJADOS DE SANTOS E RAINHAS

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Tenho dois fragmentos de um bordão medieval. Porventura, do mesmo bordão. Descobri o primeiro fragmento numa viagem, com minha avó, em 1959, num lojista/antiquário/ferro velho/vendedor de postais e louças em Alcobaça, mesmo em frente ao mosteiro. Consegui o outro de um homem de Évora, cerca de meio século depois. Ambos tinham sido adquiridos em feiras e os vendedores não tinham a mínima noção do que tinham em mãos. Acredito que pertencem ao mesmo bordão, só que foram limpos de maneiras diferentes. Vejam-se as imagens.

Os dois fragmentos da pega do bordão medieval que pertencem a Rainer Daehnhardt. O da esquerda tem ainda parte da pedra acoplada à cabeça da leoa, o da direita não tem.

A leoa sem pedra tem pátina (figura à direita), devido ao facto de ter estado sujeita a séculos de água doce a correr por ela. Quanto à leoa com um grande bocado da pedra original, o seu aspecto mostra que continuou a ser usada durante longo tempo, mas nunca esteve sujeita a banhos seculares de água doce a correr por ela. Em contrapartida, sofreu, antes da sua inclusão num túmulo, uma tentativa de enriquecimento com “refrescar das bordas das gravuras”. Tal “melhoramento de última hora” era tido como demonstração de respeito para com a personagem que ia ser enterrada.

As duas cabeças de bronze representam ferozes leoas. Uma delas mantém cerca de 60 a 70% da barra de pedra polida original. Falta o resto da pedra e a totalidade da haste, bem como os elementos que juntavam a haste à trave. Em relação a isto e não havendo mais originais conhecidos, resolveu-se examinar minuciosamente, milímetro a milímetro, toda a superfície da pedra original ainda existente (felizmente a maior parte) e chegou-se à conclusão de que as cabeças do bordão e a sua haste estiveram atadas com fitas de linho impregnado em gorduras e, de seguida, com tiras de vime encanastrado. Há muitas marcas disto mesmo. A haste não era de tubo, mas de rija madeira. Podemos acreditar que este bordão românico pode ter pertencido a São Bernardo do Claraval.

Falamos de um utensílio que não foi apenas cajado para ajudar em travessias de riachos ou rios, mas também pau para se defender contra cães, cobras ou javalis. Mais ainda: quando vemos o peso das grandes cabeças de bronze e da enorme pedra entre elas, mais a gorda haste de madeira, só posso concluir que estamos perante uma arma de guerra, que tanto servia como defesa como para o ataque. Uma vez manejada com forte mão e braço de forma circular, eram muitos quilos de peso que “voavam” contra o que fosse! Qualquer crânio de animal ou homem seria esmagado. Mesmo batendo contra alguma porta, eram poucas as que aguentariam diversas pancadas com tais martelos!

OUTROS BORDÕES SEMELHANTES

Este exemplar ainda necessita, porém, de ser mais estudado. Não se duvida da sua autenticidade. Seja como for, merece ser estudado. Vêm estas observações a propósito de eu ter recebido o Catálogo do Museu de Santiago de Compostela, cuja capa aqui vos apresento.

Ora, o que vemos é a enorme escultura da estátua de São Tiago, em Compostela, que data do século XIII. A escultura mostra um bordão de peregrino do século XIII. Vejam como as cabeças são semelhantes ao meu bordão, embora este seja anterior ao século XIII, por serem do período românico, do século XI ou XII.

À esquerda, a estátua de São Tiago que está num dos pórticos da catedral de Santiago de Compostela e à direita a capa do catálogo com a imagem da estátua fotografada com as duas cabeças de leoa adquiridas por Rainer Daehnhardt.

A atribuição deste conjunto de dois fragmentos aponta, pois, para a possibilidade de terem pertencido àquele a quem poderíamos chamar o «1º europeu» ou, melhor dizendo, o fundador da Europa propriamente dita: o monge cisterciense São Bernardo de Claraval, que escreveu as regras da Ordem do Templo, ordem religioso-militar à qual a rainha D. Teresa deu castelos em Portugal antes da criação da Nação Portuguesa! Também foi São Bernardo de Claraval que preparou tudo para que se construísse uma barreira de cavaleiros desde o Báltico até ao Mar Negro, criando a Ordem Teutónica, em tudo semelhante à Ordem Templária. Estas Ordens foram os grandes baluartes cristãos em armas que garantiram o recuo do Islão desde o século XII até ao século XV.

Voltando aos bordões medievais ainda existentes, dir-se-á que, originais, há apenas dois, ambos em Portugal. Um, o da Rainha Santa Isabel, que é datável do gótico e foi encontrado no seu sarcófago, em Coimbra, aquando da sua abertura, no início do século XVII. Sabemos que a nossa Rainha não o levou a Santiago. Aliás, foi o Arcebispo de Santiago que lho ofereceu, quando ela lá foi em peregrinação.

fotomontagem

Está completo. A dimensão é adequada a uma senhora pequena. A haste, um tubo de prata enegrecida, com a gravura da vieira peregrina na parte superior. A travessa tem uma cabeça de leoa à esquerda e outra cabeça de leoa à direita. A parte central da cabeça do bordão é uma barra octogonal, em pedra polida. Haste e travessa do bordão estão juntas por arcos de prata. O estado de conservação é magnífico, por quase não ter tido uso. Uma peça ímpar a nível mundial. Encontra-se em boas mãos num museu, em Coimbra.

O outro é o que adquiri, nas circunstâncias já aqui descritas.

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