“Class Enemy” é um exemplo daquilo a que poderíamos chamar teatro de intervenção. Fala-nos de desigualdades sociais, de marginalização social, de violência social. É um texto perturbador do dramaturgo Nigel Williams adaptado por Teresa Sobral aos nossos dias e à atualidade política e social portuguesa.
A encenação de Teresa Sobral destaca-se pelo texto visceral, evidenciando a violência e a desigualdade na sociedade. Embora a peça não mencione explicitamente partidos ou movimentos políticos, a adaptação transporta a ação para uma escola portuguesa, para uma sala de aula dessa escola, num cenário decadente, grafitado, numa atmosfera que espelha o sentimento de abandono e marginalização vivido por muitos jovens.
A encenação apresenta-nos uma crítica explícita à exclusão social, à falência das instituições educativas e ao avanço de discursos extremistas, enquadrando a ascensão da extrema-direita. Ficamos com a ideia de que a encenadora procura intervir na reflexão sobre as causas e consequências da marginalização social e da radicalização ideológica.
Estar ali sentado durante quase 2 horas é uma experiência violenta para os espectadores. Nem imagino como será para os actores, em termos físicos e emocionais. Não se trata de teatro declamativo, fofinho, foda-se! São gritos de revolta, caralho! Estão a perceber, seus enconadinhos?

Uma última questão interessante é a manutenção do título original da peça em inglês. “Class Enemy” é um título ambíguo, no sentido em que pode levar a diferentes traduções.
Pode ser entendido como “Inimigo da classe” (sugerindo que existe um elemento externo que ameaça o grupo), “inimigo de classe” (com maior conotação ideológica da luta de classes) ou “classe de inimigos” (sugerindo que aquela turma é constituída por marginais). Na verdade, depois de ver a peça, creio que o significado está na síntese destas três ideias.
O elenco de “Class Enemy” é composto por David Esteves, Guilherme Moura, Hugo Narciso, João Craveiro, Miguel Amorim, Tomás Barroso e Vicente Wallenstein. A presença de uma maioria de atores formados pela EPTC nesta produção reforça a ligação entre a formação teatral de excelência e a prática profissional no teatro contemporâneo português.




Bravo, Carlos, por teres chamado a atenção para esta peça, no voto de que ela venha a ser reposta e devidamente publicitada. Parabéns a todos e, de modo especial, ao Hugo.
Abraço
P. S.: Já li a crónica do Vasco – https://duaslinhas.pt/2025/05/eca-a-reliquia-e-olisipo-no-tempo-de-tiberio/