Todos os anos, milhões de europeus sentam-se diante do ecrã para assistir à Eurovisão. A música, os trajes exuberantes, as coreografias, os efeitos especiais, tudo parece um espetáculo inocente, até festivo. Mas por trás da cortina de luzes, repete-se um velho enredo: quem é autorizado a subir ao palco, e quem continua sem voz.
Poucos sabem — ou preferem ignorar — que a Eurovisão não é uma competição entre países, mas entre canais de televisão. É organizada pela União Europeia de Radiodifusão (EBU), uma rede de operadores públicos, e não por governos. Mesmo assim, os símbolos nacionais, as bandeiras e os aplausos assumem sempre contornos patrióticos. E é aqui que começa o desconforto.
Como pode Israel participar num evento dito “europeu”? E a Austrália? Por que razão esses países, ambos fora da Europa, são convidados habituais, enquanto outras nações geograficamente mais próximas e culturalmente ricas são ignoradas?
A resposta é incómoda. Israel e Austrália têm em comum uma história colonial, um alinhamento político inequívoco com o Ocidente, e uma população largamente branca. Eventualmente, são vistos como “europeus” que emigraram, sei lá. A verdade é que, por exemplo, a China, o Paraguai ou o Botswana poderiam cumprir os mesmos critérios técnicos que Austrália ou Israel. Mas não fazem parte do imaginário cultural que a Eurovisão considera aceitável.
O caso de Israel é ainda mais pungente. Participa desde 1973, com direito a vitórias, elogios e celebrações. Tudo isto enquanto mantém uma ocupação militar, bloqueia Gaza e a Cisjordânia, bombardeia civis e transforma o quotidiano palestiniano num cenário de ruínas. A Eurovisão não é neutra, provou-o ao excluir a Rússia após a invasão da Ucrânia. Mas quando o agressor é Israel, o palco continua aberto.
Poderíamos discutir se a Palestina deve ou não participar. Mas a verdade é mais crua: a Palestina não tem casas, quanto mais emissoras de rádio e televisão públicas. A destruição sistemática da sua infraestrutura, da sua cultura e da sua dignidade torna impossível qualquer igualdade de condições. O que sobra, portanto, é a nossa responsabilidade. A de recusar a normalização da opressão, mesmo quando ela vem disfarçada de balada pop ou refrão eletrónico.
A Eurovisão gosta de se apresentar como uma celebração da diversidade. Mas a diversidade que exibe é cuidadosamente filtrada — e muitas vezes, branca, ocidental e cúmplice. Há vozes que continuam excluídas não por falta de talento, mas por excesso de verdade. E essa verdade ainda assusta demasiado para caber numa canção de três minutos. Sim, por isso não é possível ouvirmos alguém cantar a Palestina neste festival de canções. Viva a Palestina livre!





