Quando figuras políticas são vítimas de ataques, situações de saúde públicas ou outros episódios de alto impacto emocional, isso pode alterar significativamente o curso de uma campanha. E agora estou a lembrar-me de Mário Soares na Marinha Grande e de Ramalho Eanes de peito às balas, outras campanhas, outros tempos, mas o mesmo fenómeno.
Com Jair Bolsonaro em 2018, o ataque com faca mudou o tom da campanha. A facada interrompeu os debates e intensificou a imagem de vítima do sistema, o que consolidou apoio entre seus seguidores. Deu para vencer as eleições. Com Donald Trump o sniper zarolho só serviu para o ajudar a ser eleito para um novo mandato.
Com André Ventura, um espasmo em direto na televisão, a exibição do acamado em fotos e vídeos nas redes sociais, mesmo sem qualquer indício de encenação, o episódio humaniza o candidato e pode gerar empatia. A cobertura mediática amplifica essa impressão.

Ainda que não saibamos se esses eventos foram encenados, é legítimo questionar como são usados politicamente. Em campanhas cada vez mais emocionais e teatrais, mesmo o que é espontâneo é estrategicamente aproveitado para ganho político. Isso não deve alimentar teorias da conspiração, mas levar à reflexão crítica sobre como o espetáculo político se sobrepõe, muitas vezes, ao debate racional.
Estratégias de vitimização sempre existiram, mas o que mudou drasticamente nos últimos anos foi o alcance e a velocidade com que produzem efeito, graças às redes sociais e à comunicação emocional em massa.
Quando um político é visto como vítima (de um sistema, da imprensa, de adversários ou de um ataque literal), o público tende a simpatizar com ele. E depois, o choque neutraliza críticas, porque qualquer crítica pode ser enquadrada como mais uma “injustiça”. André Ventura já explorou antes a estratégia de vitimização ao dizer que era perseguido pela esquerda, elite, sistema judicial, etc.
Hoje, uma narrativa de vitimização bem construída pode se espalhar em minutos e gerar um efeito de manada, alimentado por bolhas informativas. A capacidade de editar vídeos, manipular contextos e mobilizar influenciadores torna essas estratégias ainda mais eficazes e perigosas.
O que acho mais interessante é verificar como até os alvos do André Ventura (ciganos, afrodescendentes, imigrantes) vão para as redes sociais dizer que lhe desejam “as melhoras” e “tudo de bom na vida” porque afinal ele é um ser humano, blá blá blá. É mesmo um fenómeno fascinante e revelador.
A não ser que seja uma jogada, o que seria extraordinário. Ou seja, quando um membro da etnia cigana deseja as melhoras ao líder racista da extrema-direita que jamais seria capaz de desejar as melhoras ao cigano, isso poderá ser entendido como um exercício que pretende revelar superioridade moral sobre o fascista.
Expressar humanidade e empatia a quem o costuma desumanizar pode ser uma forma de afirmação moral pública. No fundo, é como dizer: “Apesar de tudo, nós somos melhores do que aquilo que ele diz que somos.”
Seja como for, é uma atitude que mina, subtilmente, a retórica do fascista. Mostra que os “inimigos” dele são, na verdade, mais civilizados do que ele os pinta. E são mesmo.



