Com Gaza completamente arrasada, a sanha assassina alastra para o Líbano, onde já há 2 milhões de refugiados, dois mil trezentos e cinquenta mortos, entre os quais muitas crianças.


É muito estranho, esquisito, que os jornalistas não questionem o que se passou na Palestina nos 75 anos que antecederam o dia 7 de outubro de 2023. Parece que esqueceram as pilhas de cadáveres amontoados nessas sete décadas, as expropriações ilegais, a expulsão dos palestinianos das suas casas e terras. Esqueceram ou menosprezaram.
O horror do dia 7 de outubro teve antecedentes, aquilo não aconteceu porque sim. Há raivas acumuladas, juras de vingança, humilhações sucessivas, desespero.
Passou um ano desde essa explosão de ódio e os jornalistas parece que preferem insultar a inteligência das pessoas aludindo à paz que se vivia no território até que os bárbaros resolveram dar o primeiro tiro.
Quando recentemente o Tribunal Penal Internacional considerou ilegal a ocupação, colonização e anexação dos territórios palestinianos, os jornalistas vestiram a farda do IDF e continuaram a propagar a mensagem da legitimação da agressão israelita com o chavão “Israel tem o direito a defender-se”.
Os jornalistas deixaram de se incomodar com hospitais destruídos à bomba e a bulldozer, com a matança sistemática dos jornalistas palestinianos, com as escolas alvejadas pelos aviões israelitas, com as imagens que nos magoam das crianças esquartejadas. As narrativas publicadas tendem a normalizar 75 anos de ocupação colonial, de apartheid, de limpeza étnica e do genocídio em curso.

A história está a repetir-se no Líbano. Quando Israel invadiu o Líbano em 1978, não existia Hezbollah. Quando o fez novamente em 1982, também não. O Hezbollah nasceu depois de duas invasões israelitas no Líbano, depois de muitas mortes entre a população árabe. Mas os jornalistas também não falam desses antecedentes.
Hoje, os jornalistas concedem a Israel o direito a violar o princípio da distinção, ao transformar áreas civis em alvos militares e a explodir pagers em apartamentos, bairros residenciais e supermercados, matando crianças e civis no caminho.
Para os jornalistas, o termo “terrorista” só se aplica ao Hezbollah e ao Hamas: o criminoso de guerra Benjamin Netanyahu pode violar quantas leis internacionais quiser, ir à ONU apresentar mapas de Israel que apagam a Palestina, mandar ocupar ilegalmente territórios, explodir hospitais e assassinar crianças – mas continuará sendo tratado como “primeiro-ministro”, “chefe de Estado”. Terroristas são sempre os outros.

Os palestinianos morrem incógnitos nas masmorras israelitas, passam anos enclausurados sem culpa formada nem julgamento, são torturados e violados e nada disso tem eco nas redações da Europa democrática.
Quando esta guerra passar, o que seria bom era que a “normalidade voltasse” e os palestinianos retornassem ao quotidiano da ocupação do seu chão, que se habituassem ao apartheid e a tudo o mais que os oprime há 75 anos. Ou que fossem viver para outro lado.
Israel irá continuar a boicotar qualquer viabilização do Estado da Palestina, soberano e independente, solução defendida em abstrato cinicamente pelo Ocidente.
A triste constação é que Israel não precisa de advogados para se livrar do sangue das suas vítimas, porque tem jornalistas nessa lavandaria. Não devia ser assim.



