JORNALISTAS NA LAVANDARIA

Israel continua a matar sistemáticamente e indiscriminadamente em Gaza e, agora, também no Líbano.

0
1316

Com Gaza completamente arrasada, a sanha assassina alastra para o Líbano, onde já há 2 milhões de refugiados, dois mil trezentos e cinquenta mortos, entre os quais muitas crianças.

Bombardeamento aéreo israelita em Toul, sul do Líbano
Dados divulgados pelo Ministério da Saúde do governo do Líbano: 2350 mortos, 10906 feridos no final da primeira semana de invasão israelita

É muito estranho, esquisito, que os jornalistas não questionem o que se passou na Palestina nos 75 anos que antecederam o dia 7 de outubro de 2023. Parece que esqueceram as pilhas de cadáveres amontoados nessas sete décadas, as expropriações ilegais, a expulsão dos palestinianos das suas casas e terras. Esqueceram ou menosprezaram.

O horror do dia 7 de outubro teve antecedentes, aquilo não aconteceu porque sim. Há raivas acumuladas, juras de vingança, humilhações sucessivas, desespero.
Passou um ano desde essa explosão de ódio e os jornalistas parece que preferem insultar a inteligência das pessoas aludindo à paz que se vivia no território até que os bárbaros resolveram dar o primeiro tiro.

Quando recentemente o Tribunal Penal Internacional considerou ilegal a ocupação, colonização e anexação dos territórios palestinianos, os jornalistas vestiram a farda do IDF e continuaram a propagar a mensagem da legitimação da agressão israelita com o chavão “Israel tem o direito a defender-se”.

Os jornalistas deixaram de se incomodar com hospitais destruídos à bomba e a bulldozer, com a matança sistemática dos jornalistas palestinianos, com as escolas alvejadas pelos aviões israelitas, com as imagens que nos magoam das crianças esquartejadas. As narrativas publicadas tendem a normalizar 75 anos de ocupação colonial, de apartheid, de limpeza étnica e do genocídio em curso.

criança palestiniana vítima de um bombardeamento israelita em Gaza

A história está a repetir-se no Líbano. Quando Israel invadiu o Líbano em 1978, não existia Hezbollah. Quando o fez novamente em 1982, também não. O Hezbollah nasceu depois de duas invasões israelitas no Líbano, depois de muitas mortes entre a população árabe. Mas os jornalistas também não falam desses antecedentes.

Hoje, os jornalistas concedem a Israel o direito a violar o princípio da distinção, ao transformar áreas civis em alvos militares e a explodir pagers em apartamentos, bairros residenciais e supermercados, matando crianças e civis no caminho.

Para os jornalistas, o termo “terrorista” só se aplica ao Hezbollah e ao Hamas: o criminoso de guerra Benjamin Netanyahu pode violar quantas leis internacionais quiser, ir à ONU apresentar mapas de Israel que apagam a Palestina, mandar ocupar ilegalmente territórios, explodir hospitais e assassinar crianças – mas continuará sendo tratado como “primeiro-ministro”, “chefe de Estado”. Terroristas são sempre os outros. 

no mapa de Netanyahu não existe Palestina

Os palestinianos morrem incógnitos nas masmorras israelitas, passam anos enclausurados sem culpa formada nem julgamento, são torturados e violados e nada disso tem eco nas redações da Europa democrática.

Quando esta guerra passar, o que seria bom era que a “normalidade voltasse” e os palestinianos retornassem ao quotidiano da ocupação do seu chão, que se habituassem ao apartheid e a tudo o mais que os oprime há 75 anos. Ou que fossem viver para outro lado.

Israel irá continuar a boicotar qualquer viabilização do Estado da Palestina, soberano e independente, solução defendida em abstrato cinicamente pelo Ocidente.

A triste constação é que Israel não precisa de advogados para se livrar do sangue das suas vítimas, porque tem jornalistas nessa lavandaria. Não devia ser assim.

vídeo, 2014

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui