O silêncio, ai o silêncio, é composto por um vento seguro de si próprio, mas que se escapa na brisa. As árvores dançam ao ritmo das poucas folhas caídas que rolam no chão e ao dos carrinhos de bebés que passam sem choro. Há cães, mas não há latidos, também eles descansam ao sol como os banhistas deitados no mar verde. Ninguém fala, todos murmuram.
Acabei o Bukowski, gostei das últimas páginas, mas não me seduziu, irei esquecê-lo. Depois deixo a maré baixa do mar verde, sinto-me abençoada com o sol e o vento, mas, acima de tudo, com o silêncio.
Sento-me na mesa pequena que me dá cabo das costas e cai cinza no chão. Reparo que o chão continua sujo apesar do aspirador. Está com morte anunciada… Vou buscar um copo de água e vejo a loiça suja. Estarei a dar em louca? Lavei-a toda antes de ir ao jardim…
Resolvo refrescar as ideias debaixo de um duche. Quando saio a toalha não está no sítio, vou a pingar até ao quarto, olho para a janela e continua no estendal a boiar ao sabor do vento. Ia jurar que a tinha deixado perto da banheira. Mas é quando abro a porta do frigorífico e não vejo a fruta que comprei de manhã que questiono a minha sanidade mental. O livro continua com o marcador no penúltimo capítulo. Ignoro esse pormenor.
Seco-me, passo a loção corporal que cheira a kiwi, visto a minissaia de ganga, a blusa azul, sandálias também elas azuis e ponho o colar florido. Foi a Isa que mo ofereceu. Por fim, seco o cabelo de trás para a frente para ter volume e pontas espetadas, é o meu novo penteado. Um pouco de perfume e voilá. Sinto-me bonita e olho-me ao espelho. Não vejo a minha figura, não vejo nada. Vou buscar o limpa-vidros e lavo-o com determinação. Continuo sem ver a imagem refletida. Mudo-o de sítio, não está a apanhar luz, é isso. Mas não, não há nada meu no maldito espelho!
Sinto a cabeça a andar à roda e sento-me no sofá. Fumo um cigarro. À medida que este arde lembro-me. De repente, lembro-me de tudo. Fui à Rua do Bem Formoso e uma bala perdida cravou-se-me no coração. Não era para mim. Mas fui eu que tive morte imediata. Rápido, tão rápido! Morri. Só agora recordo.
Corro para a paz do mar verde, caem-me lágrimas, falta-me o fôlego. Quando lá chego, sinto o mesmo silêncio do vento que escapa na brisa. Está tudo exatamente igual, os carrinhos de bebés, as folhas, os cães, os banhistas deitados ao sol. Ninguém fala.



