Falavam os historiadores de ‘romanização’ para identificar a influência exercida pelos Romanos colonizadores sobre as populações indígenas.
O fenómeno estava bem patente, por exemplo, nos monumentos epigráficos, uma vez que, por eles, se verifica claramente que mesmo os textos referentes a indígenas passaram a ser redigidos em latim e tanto os nomes de pessoas como os de divindades chegaram até nós latinizados.
Quando, porém o movimento descolonizador ganhou maior força no Ocidente, começou a proclamar-se que o uso da palavra estava errado, porque não houvera, da parte do governo central romano, uma ordem expressa para que tudo passasse a ser à romana. Daí que – até à semelhança do que ocorrera mais perto de nós, no contacto de civilizações diferentes – o termo ‘aculturação’ passasse a ser o preferido, porque, na verdade, ambas as partes em confronto acabavam por contribuir para o resultado final.
E, no caso português (o português nosso e o português do Brasil), há exemplos deveras curiosos nesse sentido:
– Camone: é um turista estrangeiro; a palavra deriva da expressão ‘come on’, «anda cá!», amiúde utilizada pelos turistas nos primeiros tempos.
– «à la guilho» é estranha e desajeitada corruptela, de uso culinário, da expressão castelhana ‘al ajillo’, literalmente ‘com alhinho’.
– Gilete: lâmina ou utensílio de barbear; vem do nome do seu inventor, o norte-americano King Camp Gillette (1855 1932).
– No português do Brasil uma fotocópia diz-se xerox, fotocopiar é xerocar, da marca inglesa Xerox. Inventado, em 1948, pelos físicos Chester Carlson (norte-americanos) e Otto Kornei (austríaco), este processo tem designação etimologicamente grega: de ‘cserós’ (seco) e ‘gráfo’ (escrever), por não usar tinta.
– Kodak foi, até à década de 90 do século passado, o nome corrente para designar máquina fotográfica, nome que deriva da marca, criada, em 1888, pelos norte-americanos George Eastman e Henry A. Strong.
– Freezer, em português do Brasil, é congelador, a palavra foi diretamente importada do inglês em que «to freeze» significa congelar.
Enfim, neste nosso mundo global, o que mais interessa é que, independentemente das palavras, os actos contribuam para uma cada vez mais desejável convivência pacífica.
(Também publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 345, 20-08-2025, p. 13)




Boa noite José d’Encarnação. Este texto trouxe-me à ideia a infância, o que é sempre gratificante, pelo que, desde já, bem hajas.
Percebi as palavras todas, porque já as ouvi, algumas expressões já proferi, só não entendi porque não tem gilete o Camone…
Há para aí aos montes, baratinhas. E camones também não faltam.
E por se apanharem as palavras a jeito, sem falar de aculturação, mas de corruptela, mais que tudo, já ouviste dizer “alservar”, por exemplo? Eu ouvia muito em criança e fartava-me de corrigir:
Minha senhora, meu senhor, não é alservar, é observar! Encolhiam os ombros e debitavam outras pérolas que eu anotava num caderninho quadriculado. Hoje é uma raridade. Havia episódios que se julgavam anedota, de tão hilariantes.
Morava perto de nós, em Santa Clara-a-Nova, um cavalheiro espanhol que ainda usava termos seus e que a propósito de um caso que corria na justriça, dizia para outros no café cheio:
Têm que arranjar testigos fuertes, lo sabes?
O empregado limpou a bancada cinco vezes, olhou os outros que fugiam porta fora muito preocupados e perguntava ao espanhol: mas o cafezinho com cachaça está bom, não é verdade?
Era verdade e ele estava contente. Lá fora é que era um burburinho. Os da seita do alservar julgaram que os oficiais da justiça se iam deter nos “testigos”. Uma catástrofe!
Essa noite parte do bairro não dormiu. No outro dia não havia outra palavra para os ditos: passaram a ser testigos.
As minhas desculpas pelo adiantado da hora, mas…”o que existe sem palavras”, teria perguntado Elias Canetti, Nobel de Literatura em 1981.
Ao menos latinizando, os romanos não davam azo a confusão. A não ser que houvesse autóctones confusos por natureza, que também eram afectados por corruptelas.
Um abraço.
Boa noite.