O território a que chamamos Faixa de Gaza é diminuto: tem apenas 41 quilómetros de comprimento (menos do que de Lisboa a Setúbal) e, no máximo, 12 quilómetros de largura (menos do que de Lisboa a Loures), ocupando uma área total de 365 quilómetros quadrados. Ali vivem mais de 2 milhões de pessoas, o que faz de Gaza um dos territórios mais densamente povoados do mundo. Número esse que está em queda livre com o genocídio em curso.
Não se compreende como os militares israelitas não conseguem controlar eficazmente um território tão pequeno. Também não se percebe como não foram capazes de derrotar efetivamente os guerrilheiros do Hamas, sendo certo que dentro de Gaza, e até dentro do Hamas, o exército de Israel, as operações especiais e os serviços secretos têm olhos e ouvidos. Enquanto o Hamas pouco mais possui do que armamento ligeiro, Israel dispõe dos meios militares mais sofisticados, modernos e potentes, seja em terra, no ar ou no mar.

Será isto um fracasso militar para Israel ou antes uma estratégia deliberada? A perceção que tudo isto deixa é a de que Israel pretende prolongar o martírio dos palestinianos. Mantendo o Hamas vivo como pretexto, consegue justificar a ofensiva permanente e a guerra de desgaste. Ao mesmo tempo, acredita que levando o sacrifício palestiniano a níveis inimagináveis, conseguirá forçar o êxodo em massa, nem que seja para países distantes e frágeis como o Sudão ou a Somália — com os quais Israel tem tentado negociar a transferência de centenas de milhar de palestinianos, em termos que permanecem obscuros. Tal prática, a concretizar-se, configuraria uma transferência forçada de população, crime de guerra à luz do direito internacional.
O certo é que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu frustrou já sete tentativas de chegar a um acordo de cessar-fogo em Gaza, apesar da opinião favorável de altos funcionários de segurança, chefias militares israelitas e da crescente pressão internacional. Netanyahu repetidamente introduz novas condições ou muda de atitude no último momento. Finge negociar.

Resumindo: a guerra na Palestina é, de facto, uma guerra para expansão territorial israelita e nada tem a ver com o ataque de 7 de outubro de 2023. Aliás, a Faixa de Gaza tem sido alvo de bombardeamentos cíclicos ao longo dos anos: em 2008, 2012, 2014, 2021 e 2023, sempre em retaliação a ataques de mísseis caseiros lançados pelo Hamas. Esses mísseis palestinianos raramente causaram vítimas — caem no meio do nada ou são abatidos em voo pelos sistemas de defesa israelitas. Já as retaliações resultaram sempre em milhares de mortos civis e na destruição sistemática de infraestruturas. Mas, até agora, tinham sido operações militares limitadas no tempo. Nunca antes se tinha visto nada como o que está a acontecer hoje em Gaza.



