QUANDO SE ESCOLHE O NÉCTAR

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Encontro-me a ver os escaparates dos vinhos num centro comercial. Estou acompanhado do meu amigo Cid Adão, “exímio” na escolha do precioso néctar. Olha os rótulos, lê as castas… as graduações, franze o sobrolho… agora, noutras garrafas, sorri imperceptivelmente, olha o preço e a algumas garrafas, que elege, mete-as no cesto que a superfície comercial disponibiliza e segue para analisar outras. Por vezes resmunga em voz baixa. Sigo-o a curta distância.

            – Ó prof, não compra nada? Estão aqui umas garrafinhas muito interessantes, algumas estão caras para o que contêm… Por exemplo, esta: “Touriga nacional, touriga franca, e alfrocheiro. Alfrocheiro é uma casta que dá uma cor forte ao vinho, esta casta dá o “ar” de carrascão, mas 4 Euros e 80 cêntimos, é elevado para o vinho… pelo menos vindo do produtor que está aqui indicado.

            – Só bebendo, não? – digo eu.

            – Não, nem é preciso beber.

            – Ó Cid Adão, sei que o meu amigo percebe “da coisa”, mas agora fez-me lembrar uma passagem minha por um certame… Um dia, estava numa feira em Mangualde e, ao apreciar uma garrafa, a olhar para o preço, oiço uma voz, atrás de mim: “Acha que é caro o vinho?” Virei-me, era o antigo ministro e deputado, Jorge Coelho, já falecido, a fazer-me a pergunta. Continuou: “Preço do vinho calculado depois do esmagamento da uva, demora temporal em estágio, nem que seja um pouco, digamos que um mínimo, um ano. A demora, esse tempo, convertido em dinheiro despendido pela adega, neste caso. Podia ser um produtor particular, seria a mesma demora e a verba empatada sem lucro, é idêntico. O preço da garrafa vazia. O preço da rolha, nesta altura é cara, isto porque um bom vinho merece sempre uma boa rolha, não são baratas, digo-lhe. Um rótulo, cujo preço, não é de graça, tem o envolvimento de designers. Quero dizer, no fim disto tudo que, sem contar com as despesas administrativas e de venda através de alguns funcionários…

Respondi sem o deixar acabar:

            – Meu caro doutor, por esse lado é a mais pura verdade, é exactamente assim que se passa nos “trajectos” da enofilia, seja, no terreno. Pelo meu lado, agora, o do cidadão que vem ver a feira, sem saber, ou pensar nestas coisas…

Também não me deixou acabar:

            – Pois é assim, está caro para a nossa bolsa. É verdade, sim, mas olhe, quem produz e mantém postos de trabalho, tem que ser valorizado… não estão caros, os vinhos, paciência, vamos só ao que podemos e isso já é muito bom. Desejo-lhe um dia feliz.

Despedi-me dele e coloquei a garrafa no local original. Foi assim, amigo Cid Adão.

Cid Adão, como amigo que é, responde:

            – Prof., aceito o que refere, tem razão nessa alusão, mas oiça, já agora e dado que é um vate, podia escrever alguma coisa em favor deste néctar que dá de comer a tanta gente. Queria ver o que se lhe oferece, nesse sentido.

            – Pois vou pensar nisso, irei escrever alguma coisa já que me pede, até vou dedicar o texto em forma de poema, ao ilustre Cid Adão.

Resolvi escrever um poema simples para “moer” a cabeça do meu amigo Cid Adão. É assim:

O NÉCTAR
“Desde os pródromos mais prístinos
Que os nossos recessos ancestros
Estereotiparam, no estendível
Do ancestral regalório,
Uma enofilia, que se tornou beneficente
E simultânea, a efeitos peristálticos
E ligeiramente, quando menor, analgésicos,
Mas sempre, frisemos, edificantes…
Ora, os bagoados resultados da flor,
Do arbusto sarmentoso, tão estimado,
Que na frutescência deram o seu melhor,
Vão à pisada. O que daí sai é um hino que…
Posterior ao estado fermentáceo é dionisicamente
Honrado nos púlpitos do nosso consciente,
e o era, nas ambarvais de antanho.
Era, o requintado corpo que toma a forma
Do vaso que o contém, dado a fiomélicas pessoas para cura!
Não menosprezemos, nunca, o que é sublime!”

Cid Adão não me disse nada ainda, mas quando ler o que escrevi vai-me  dizer, penso eu:

            – Ó prof., não esperava que me fizesse “manobrar” de forma tão constante a Enciclopédia Luso-Brasileira. Digo-lhe que sorri e que valeu a pena a sua escrita para me “atanazar”… a aprender o léxico.

Aqui entre nós, será que vai responder assim, ou com outro texto?

2 COMENTÁRIOS

  1. Longe de mim a ideia de emparelhar com tão douto e eloquente vate. Meu vocabulário também não abarcava a totalidade dos termos por ele usados para sublimar ainda mais a excelência dos néctares que nos tornam a existência mais agradável. Tive, porém, a sorte de me ser servido um desses néctares e não resisto a partilhar as suas qualidades expressas de forma tão poética quase como a do vate Victor Martins. Ora leia-se e, no fim, pare-se um pouco a reler, para tentar compreender cabalmente o que ali vem escrito:

    «Cor rubi brilhante
    Aromas com frutos vermelhos maduros
    e pequenas bagas
    boca com excelente frescura
    e taninos vivos
    mas bem integrados
    termina elegante e com bom volume».

    • Victor Martins
      27 de agosto de 2025 19:47
      De facto um “sabor prolongado com volume” … torna simples e profundamente agradável o “continuado” do néctar para lá dos sentidos. O meu aproveitamento do texto para esta cronicazinha deve-se a um dia de pesquisa na enciclopédia luso-brasileira para colocar um colega da área de português, às voltas com o léxico. A simplicidade poética serve melhor, assim, com os dados das provas dos enólogos. Bendito néctar.

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