TRUMP, ÁFRICA, NEGÓCIOS E GEOPOLÍTICA

Entre 9 e 11 de julho, Donald Trump receberá os líderes de cinco países africanos — Gabão, Guiné-Bissau, Libéria, Mauritânia e Senegal — numa mini cimeira inesperada que está a ser anunciada como uma oportunidade para discutir negócios e relançar parcerias. Mas por detrás da retórica empresarial há muito mais do que interesse económico: há cálculo geopolítico, reposicionamento estratégico e tentativa de contenção ideológica.

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É importante lembrar que, durante o seu primeiro mandato, Trump demonstrou desinteresse notório por África, tendo cortado fundos da USAID e minimizado a cooperação com vários países do continente. Agora, esta inesperada iniciativa levanta interrogações sobre o que terá mudado.

Para começar, há um novo mapa de forças no continente africano. A presença da China continua a expandir-se através de investimentos em infraestruturas, e a influência da Rússia reforça-se, sobretudo no Sahel, com a cooperação na área da defesa e na exploração de minérios. No Mali, a Rússia tem em ação um Corpo Expedicionário que ajuda a combater a insurreição de extremistas islâmicos. E, depois, há o líder do Burkina Faso, Ibrahim Traoré. Traoré tornou-se símbolo de um novo discurso panafricanista e anti-neocolonial, que questiona abertamente a legitimidade da França e dos EUA no continente. E apostamos em que ele será tema das conversas de Trump com Sissoco e restantes companheiros de viagem.

Ibrahim Traoré com Umaro Sissoco Embaló, Presidente da Guiné-Bissau, em Moscovo, em 9 de maio de 2025

A cimeira agora convocada parece ser, em parte, uma tentativa de isolar esse núcleo radical, reunindo países considerados “moderados”, mais propensos à diplomacia do que a revoluções. Nenhum dos cinco convidados tem tido posições de ruptura com Washington e todos mantêm uma relativa estabilidade institucional.

Mas há outra camada mais sensível nesta jogada diplomática: todos os países convidados são maioritariamente muçulmanos (com exceção parcial da Libéria, onde o islão cresce), e esta cimeira surge no auge da guerra na Palestina, com imagens de destruição, sofrimento, do genocídio da população a circularem por todo o mundo islâmico. Trump sabe que a continuação do apoio cego dos EUA a Israel poderá desencadear condenações explícitas por parte de países africanos de maioria muçulmana, mesmo aqueles tradicionalmente alinhados com o Ocidente.

O anúncio desta mini cimeira fala em “oportunidades de negócio”, com as quais Trump quererá manter a influência dos EUA, agora que a agência USAID está em fase de desmantelamento. Ou seja, substituir os programas de ajuda externa por acordos bilaterais lucrativos, garantir apoio (ou silêncio) em fóruns internacionais como a ONU, isolar figuras como Traoré e controlar o discurso africano sobre a Palestina, serão as reais preocupações dos EUA, quando chamaram estes líderes africanos a Washington.

No fundo, trata-se de comprar tempo e influência, antes que o terreno escorregue debaixo dos pés da diplomacia americana. Para Trump, África continua a não ser um fim em si mesmo, é um peão num tabuleiro maior, onde a guerra na Palestina, a ascensão do Sul Global e a crise da hegemonia ocidental se cruzam numa nova partida sem regras claras.

Guiné-Bissau ou o valor de um voto

Num mundo em convulsão, até os países mais pobres e pequenos podem descobrir que têm um peso inesperado. A Guiné-Bissau, frequentemente esquecida nas grandes narrativas internacionais, pode estar prestes a experimentar um desses raros momentos em que a sua fragilidade se converte em vantagem geopolítica. É neste contexto que a Guiné-Bissau pode sair valorizada. Não por causa da sua dimensão económica ou força militar, mas por algo mais simples e poderoso: o seu voto.

Nos fóruns internacionais, cada Estado vale um voto, independentemente da sua população, PIB ou estabilidade interna. Em situações de tensão, como as votações na ONU sobre Gaza, as sanções à Rússia ou as resoluções sobre segurança internacional, o voto da Guiné-Bissau pode ser cortejado, disputado, até comprado. Com o atual Presidente, a Guiné-Bissau parece ter condições para jogar este jogo com subtileza. Pode apresentar-se como país moderado, islâmico, atlântico e lusófono, capaz de funcionar como ponte entre mundos. Pode posicionar-se como plataforma de mediação, como centro logístico, ou simplesmente como parceiro fiável e previsível — uma raridade numa região minada por golpes e confrontos.

Paradoxalmente, num tempo em que a ordem internacional está em desagregação, os pequenos países voltam a ganhar margem. Porque quando os grandes se digladiam, até as peças mais frágeis podem decidir a partida. Para a Guiné-Bissau e também para Umaro Sissoco Embaló, esta é uma oportunidade rara de negociar o futuro, uma via para o desenvolvimento, com inteligência e não apenas com submissão.

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