Para nós, justo foi, por ter facilmente acedido a libertar-nos da tutela de Sintra. Não fazia, de facto, sentido: Cascais, vila piscatória, a viver do mar e dos seus recursos, ter de estar sujeita às leis de uma terra que fica para o lado de lá de Serra e que tem na agricultura e nos pomares a sua maior fonte de riqueza. Nada de semelhante a Cascais, portanto. Por isso el-rei, tendo dado ouvido ao que os homens-bons da vila lhe mandaram dizer, houve por bem e mandou «que o dito lugar de Cascais seja isento da sujeição de Sintra cuja aldeia era de que seja vila per si e que haja jurisdição do cível e do crime».

Quedara, pois, comigo uma imagem boa, el-rei arauto de uma liberdade, percursor de uma democracia de o «povo quem mais ordena». Importava, porém, ler bem o documento régio, onde claramente el-rei mandara declarar as razões da sua decisão: que considerava serviço de Deus e seu «e guarda de minha terra porque aquele lugar está em aquela costa do mar».
Invocar um motivo religioso é expressão da praxe; sublinhar a relevante posição estratégica do portuário burgo era bem de ver; mas… que outro serviço seria? Está lá: «E eles devem dar-me em cada um ano daqui em diante as ditas 200 libras além do que eu i hei» – e conforme os moradores lhe haviam prometido ….
Portanto, bondoso sim, mas não tanto! Luziam-lhe os olhos para as luzidias escamas do pescado — e pronto, amigos pescadores, amanhem-se como quiserem, avenham se com os piratas, que eu daí lavo as minhas mãos e os meus homens passarão apenas para arrecadar o que me é devido!…
O livro de Helena Ventura
Foi recentemente publicado, como já aqui houve oportunidade de referir, o romance histórico Acorda Inês. A Rosácea, da autoria da escritora Maria Helena Ventura. Debruça-se a Autora, de preferência, pela vida íntima (digamos assim) de Pedro e seus familiares, que, peregrinando de terra em terra, por lá iam encontrando homens e mulheres. Uns e outras poderiam ser de apetite, benza-os Deus!

Não é Acorda Inês um rol pegado desses relacionamentos fátuos. Mas tem-nos. Abundantes. E há palavras a que, porventura, não estaríamos lá muito habituados a ler com tamanha frequência e que, nestas páginas, são mesmo frequentes: barregãs, arreitado, cuvilheiras, rouçar, donear…
Esse jovem que foi monarca – e que eu mantinha em pedestal, tão amigo fora de Cascais… – também andara, afinal, metido em ambientes de lutas, amores proibidos, amores ardentes. Incestos!…Horrores e hipocrisias profundas. Dores lancinantes, mui lancinantemente descritas. Erotismo quanto baste, ternuras, lirismo largamente espargido por todas as páginas. Minuciosas descrições, com terminologia adequada, da época – que, nisso, Helena Ventura bem se esmerou.
Mas, sobretudo, sobretudo, uma prosa poética, muito poética mesmo, que, a cada passo, nos seduz. Os capítulos são invariavelmente curtos e, também eles, com designações deveras sugestivas: «sua amadeira até ao fim dos tempos»; «a revolta de um infante louco»; «de popular a justiceiro e cruel»…
E bastos capítulos abrem com eloquentes epígrafes, que muito são de elogiar: «Uma mulher só é fraca quando não sabe afagar»; «Um sorriso alimenta mais que uma taça de comida»; «De que vale enganar a vida, se é ela que lança os dados?»…
E permita-se me que termine com uma frase que especialmente me tocou e que é bem a prova de como será agradável ler Helena Ventura: «A vida só é vida quando posta no sossego das horas, como uma grinalda de flores nas águas calmas de um rio».





Boa tarde José d’Encarnação e Carlos Narciso, pela escrita e publicação de mais esta crónica sobre o ACORDA INÊS.
É o último romance histórico, teria de ter alguém especial a fazer esta apresentação e não me ocorreria um nome mais importante do que José d’Encarnação, que tão bem conhece o que venho fazendo há mais de duas décadas, embora houvesse mais duas para trás com outros géneros literários.
Senti-me fortalecida, como hoje me sinto grata e privilegiada. Sei bem que a crueza da linguagem vernácula e algumas verdades usadas no livro o haviam de abalar, mas assim mesmo, um gesto de Amizade, aceitou o desafio desta apresentação. Quanta honra!
Quando se pesquisa sobre um rei pouco conhecido – e a proposta do editor era fazê-lo sobre Afonso IV – aprende-se sempre muito sobre a Personalidade e sobre as outras que fazem parte do círculo familiar, ou do grupo de conselheiros.
Pedro não era para mim uma total revelação, mas nem eu alcançava o seu grau de crueldade e sadismo, talvez devidos às patologias ao tempo mal conhecidos e por isso tratadas de forma indevida, que lhe toldavam a razão por longos períodos.
Quando quis introduzir o episódio da concessão de autonomia a Cascais, pedida pelos “homens bons” (com posses) da então aldeia, já o livro se encontrava na gráfica em impressão.
Era uma fustrada tentativa de mitigar a impressão sobre os defeitos da figura que mostraria no livro, o rei que com a companheira Inês de Castro viveu nas terras onde nasceu a minha avó paterna.
Talvez não tivesse de ser…Talvez a estátua que Cascais exibe em frente à Câmara Municipal e outros monumentos, sejam glória bastante para quem teve um reinado tão curto e poucos feitos dignos de exaltação.
Fica o desafo para a leitura e a visita a Alcobaça. As duas arcas tumulares que ele teria mandado fazer para guardar os seus restos mortais e antes dele os de Inês, tão primorosamente executadas por artistas desconhecidos, mas certamente do conhecimento do Abade D. VIcente Geraldes, são uma obra prima da estatuária-iconografia medieval.
Um abraço muito grande e o meu reconhecimento.