Os figurinos de Helena Reis

O mundo do espetáculo é abundantemente injusto com muitos dos criadores que são fulcrais para a sua existência e que, apesar de visibilidade da sua obra, tantas vezes elogiada, veem, outras tantas vezes, os seus nomes omitidos e raras vezes são alvo do reconhecimento e gratidão que merecem. Permitam-me, assim, que hoje vos fale de uma notabilíssima cenógrafa e figurinista portuguesa, Helena Reis, uma profissional de excelência já com uma muito relevante carreira.

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Formada na antiga Escola Superior de Belas Artes, hoje a Faculdade Belas Artes da Universidade de Lisboa, onde alcançou o prémio “Escola de Belas Artes”, destinado ao melhor aluno daquela instituição entre os cursos de Arquitetura, Escultura e Pintura. Começou por se dedicar à pintura, prática que, aliás, nunca abandonou, tendo realizado várias exposições e fazendo as suas obras parte de diversas coleções públicas e particulares. Importa referir que tem um traço de enorme qualidade, facilmente reconhecível. Num momento em que pouco se liga ao domínio da linguagem do desenho é bom ver que ainda há quem cultive esta forma de arte.

Helena Reis – O rapaz da bicicleta. 2019. Coleção particular

Desde cedo se dedicou à realização plástica do espetáculo, quer na área da cenografia, quer, sobretudo, na esfera nos figurinos. De acordo com o seu extenso curriculum vitae, a sua estreia deu-se no espetáculo A louca de Chaillot, um texto de Jean Giraudoux, encenado por Luzia Maria Martins para a companhia Teatro Estúdio de Lisboa, protagonizado por Helena Félix e apresentado no teatro Vasco Santana, no ano de 1968, sendo sua toda a realização plástica.

Colaborou com inúmeros encenadores e em diversos tipos de teatro, desde o mais popular, a revista à portuguesa, perdendo-se a conta às revistas por cujo design de cena foi responsável, mas fez também muitas cenografias para o teatro mais erudito, nomeadamente de pesquisa e mesmo ópera.

No teatro de revista trabalhou para diversas companhias, sendo de destacar a colaboração, já com décadas, com a atriz e encenadora Marina Mota, por cuja realização plástica dos espetáculos tem sido a responsável.

Helena Reis – Ilustração para figurino para personagem “Pierrot” para o espetáculo de Teatro de Revista Vitória, Vitória!, encenado por Henrique Santana. Personagem interpretada por Vera Mónica. Lisboa : Teatro Maria Matos, 1991. Reposto na série de televisão Marina Dona Revista, dirigida por Marina Mota. Carnaxide : SIC, 1996. Coleção particular

Vestiu inúmeros intérpretes, alguns dos mais significativos atores e atrizes portugueses, como Anna Paula, Cecília Guimarães, Lourdes Norberto, Ivone Silva, com quem nutria particular amizade, Ruy de Carvalho, Rui Mendes, Santos Manuel, Canto e Castro, entre tantos outros.

Helena Reis – Ilustração para figurino para a personagem “Dona Inflação”, para o espetáculo de teatro de revista Aqui Há Rato!, encenado por Ivone Silva. Lisboa : Teatro Maria Vitória, 1986. Devido a um devastador incêndio deste teatro, havido pouco tempo antes da estreia prevista, o figurino seria utilizado na espetáculo Isto é Maria Vitória!, com a mesma encenadora e intérprete. Lisboa : Teatro Maria Matos, 1986. Coleção Museu Nacional do Traje e da Dança

Ao nível do teatro mais erudito importa destacar a importante colaboração com o encenador Carlos Avilez e os trabalhos realizou para espetáculos do Teatro Experimental de Cascais.

Estes foram apresentados em vários espaços, como o Teatro Gil Vicente em Cascais, mas também em auditórios como o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, onde em 1987 foi apresentado o espetáculo Hamlet, baseado no texto homónimo de William Shakespeare, ou na primeira sala de teatro do país, a sala Garrett do Teatro Nacional Dona Maria II, onde em 1986  foi responsável pelo design de cena do espetáculo Guerras do Alecrim e Mangerona.

Helena Reis – Ilustração para figurino para personagem “Fantasma do pai de Hamlet” para o espetáculo de teatro Hamlet, encenado por Carlos Avilez. Personagem interpretada por Filipe Ferrer. Lisboa : Centro de Arte Moderna FCG, 1987. Coleção particular

Com encenação de Carlos Avilez seria ainda a responsável pela realização plástica da Ópera dos Três Vinténs, apresentada no Teatro Gil Vicente em Cascais no ano de 1976.

J. Marques – Cena do espetáculo A Ópera dos Três Vinténs, encenado por Carlos Avilez. Figurinos de Helena Reis. Cascais : Teatro Gil Vicente, 1976. Espólio do Teatro Experimental de Cascais

Ainda neste mesmo género seria também responsável pelos cenários e figurinos da ópera As Variedades de Proteu que subiu à cena no Teatro Nacional de São Carlos em Lisboa no ano de 1982, encenada por Carlos Avilez.

Helena Reis – Ilustração para figurino para personagem “Dórida” para o espetáculo de ópera As Variedades de Proteu, encenado por Carlos Avilez. Personagem interpretada por Alice Marinho. Lisboa : Teatro Nacional de São Carlos, 1982
Helena Reis – Ilustração para figurino para personagem “Cirene” para o espetáculo de ópera As Variedades de Proteu, encenado por Carlos Avilez. Personagem interpretada por Isabel Malaguerra. Lisboa : Teatro Nacional de São Carlos, 1982

Tem também uma obra muito significativa para televisão, sendo responsável pelos figurinos de um dos mais populares projetos de televisão europeus de todos os tempos, os Jogos sem Fronteiras, tendo os seus figurinos sido considerados, no ano de 1983, os melhores de toda a série difundida pela Eurovisão. Foi ainda a criadora dos figurinos para várias séries televisivas de grande sucesso como A Tragédia da Rua das Flores, transmitida pela RTP em 1983 (fig. 9).

Cena da série de televisão Tragédia da Rua das Flores, dirigida por Ferrão Katzenstein. Personagens Vítor e Genoveva, interpretadas por Antonino Solmer e Lourdes Norberto. Figurinos de Helena Reis. Lisboa : RTP, 1983. Arquivos RTP

Por fim importa lembrar a recriação do cortejo da famosa embaixada enviada em 1514 por D. Manuel I ao papa Leão X, capitaneada por Tristão da Cunha, o primeiro a ser nomeado governador da Índia, com a criação de um corpus gigantesco de figurinos, de notável criatividade, tendo este cortejo sido apresentado na Exposição Universal de Sevilha, a Expo Sevilha 92, dedicada à “Era dos Descobrimentos”, havida por ocasião das comemorações do centenário da descoberta da América por Cristóvão Colombo e depois patenteado em várias cidades de Portugal, nomeadamente no Porto, por ocasião das comemorações do centenário do nascimento do Infante Dom Henrique.

Cena da recriação do cortejo da embaixada enviada em 1514 por D. Manuel I ao papa Leão X, apresentado no Porto por ocasião das comemorações do centenário do nascimento do Infante Dom Henrique Figurinos de Helena Reis. Lisboa : RTP, 1994, junho, 10. Arquivo RTP

Disse Roman Rolland que o teatro, tal como o fresco, é uma arte adaptada ao seu lugar. E, por isso, é, sobre todas as outras, a arte humana, a arte viva. Assim, em jeito de conclusão convido-vos a descobrir esta importante criadora, que continua a trabalhar para manter o Teatro vivo e a contribuir para as artes do espetáculo em Portugal.