Durante anos, ouvimos dizer que os médicos estavam esgotados, sobrecarregados, em burnout. Que não aguentavam mais, que metiam baixa por exaustão ou batiam com a porta do SNS por falta de condições de trabalho. Essa narrativa pode ser verdadeira em alguns casos. Muitas vezes é usada como escudo para justificar o colapso progressivo da saúde pública em Portugal.
Mas eis que surge um caso que deixa tudo em xeque: o do médico Miguel Alpalhão, dermatologista, que terá faturado 409 mil euros em apenas 10 sábados, o equivalente a 40 mil euros por dia, num programa de recuperação de listas de espera. A isto somam-se outros valores faturados ao longo do ano. Tudo isto… fora do horário normal de trabalho. E não se trata de um médico com carreira feita, não. O dr. Alpalhão é jovem ainda, 33 anos segundo diz a imprensa.
Até aqui, já seria motivo de alarme: como é possível alguém receber do Estado, num só dia, o que muitos portugueses não ganham em anos de trabalho? Quantas cirurgias são necessárias para atingir esse valor? Em que condições foram feitas? Com que ética?
Mas o escândalo cresce quando se lê que Miguel Alpalhão esteve de baixa médica nos últimos três meses de 2024, e em 2023 esteve de baixa quase o ano inteiro, trabalhando apenas durante quatro meses. Ou seja, em dois anos, passou praticamente um ano inteiro “doente”, mas nos períodos em que estava “bom”, realizou cirurgias em série, sempre muito bem pagas.
Que tipo de doença é esta, que aparece quando o horário é normal e desaparece quando há 40 mil euros à espera ao sábado? Como pode um médico estar inapto para o trabalho em horário normal, mas apto para operar num regime de alta intensidade, fora do horário normal? Quem aprova estas baixas? Onde está a fiscalização da Segurança Social? Ou da Inspeção-Geral das Atividades em Saúde? E a zelosa Ordem dos Médicos, sempre pronta para defender o “prestígio da profissão” o que diz disto?
Este padrão de comportamento não parece ser resultado de uma doença. Assemelha-se mais a uma estratégia de sacar dinheiro à custa do Estado. É um caso inadmissível, no seio do próprio SNS, com contratos pagos por programas públicos, geridos por entidades públicas, com conhecimento de todos os envolvidos.
É possível que o médico em causa tenha agido dentro da legalidade. Mas o problema é precisamente esse: que seja legal usar a baixa médica como escudo seletivo, para fugir ao trabalho regular e garantir disponibilidade total para os momentos mais lucrativos.
Nós que esperamos meses por uma consulta, anos por uma cirurgia, que deixámos de ter médicos de família nos centros de saúde, que vemos familiares, amigos, vizinhos, morrerem em macas nos corredores dos hospitais, não podemos aceitar que existam médicos que ganham fortunas sob um regime imoral: doentes para o horário normal, saudáveis para os extras milionários.
A saúde pública não pode ser o paraíso para alguns privilegiados, à custa de todos os outros. Quando se deturpa o sistema a este nível, não estamos perante burnout. Estamos perante um curto-circuito institucional e moral.
O senhor doutor está doente e cansado? Deve ser de contar notas de 100… não somos médicos, mas sabemos que movimentos repetidos podem provocar lesões musculares ou tendinites. Deve ser isso.




Fiquei perplexa.
Voltarei a este tema, porque o que acabo de ler é a denúncia de uma imoralidade e todas as que fazem colapsar os sistemas, devem ser denunciadas.
O país bateu no fundo.
Espertinho, o moço! Se com 33 aninhos já manobra assim, que será daqui a dois ou três, quando souber ainda melhor como se dribla a legislação!?… Ah! Valente. E, aqui para nós, que ninguém nos ouve, quem assinou a baixa também recebeu uns cobrezinhos, não é verdade? Tenham é ambos cuidado com as tendinites, como adverte Carlos Narciso. Tendinite para um dermatologista é susceptível de inibir intervenções cirúrgicas lucrativas… Cuidado!