Em 2022, o artista afegão Kaihan Hamidi chegou a Portugal com a esperança de reconstruir a vida. Fugia do regime talibã, que além de ameaçar a liberdade, sufocava qualquer expressão artística. Trazia na bagagem talento, reconhecido no seu país natal, e a vontade de recomeçar. Durante algum tempo, parecia ter encontrado em Beja um refúgio.


A comunidade acolheu-o. As suas aguarelas começaram a retratar paisagens portuguesas com uma delicadeza quase mágica: castelos, ruas de pedra, o quotidiano simples e belo que os olhos de um estrangeiro sabem valorizar. Mas o acolhimento inicial não se transformou em estabilidade.


Hoje, Kaihan Hamidi vive à margem. Depois de deixar Beja, foi viver para Lisboa, onde chegou a montar uma tenda na rua, como tantos outros sem-abrigo. É uma realidade difícil de aceitar para quem conhece o seu percurso, a sua obra e o simbolismo da sua presença em Portugal. Vive sozinho, depois da mulher e filha, em busca de melhores condições, terem mudado para a Alemanha.
Na Alemanha, Hamidi teria acesso a programas de apoio a artistas refugiados, residências artísticas, uma rede institucional mais robusta. Mas escolheu ficar. Talvez por resistência. Talvez por afeto ao país que primeiro o recebeu. Talvez porque ainda acredita que Portugal pode reconhecer o seu valor.
A história de Kaihan é também um espelho do que falta na política cultural e de acolhimento em Portugal. Falta continuidade no apoio. Falta uma verdadeira integração social e profissional. Falta, sobretudo, um compromisso coletivo com a dignidade. E os próximos tempos não se adivinham favoráveis a que alguma coisa melhore.
Numa altura em que se discutem modelos de integração e alguns pretendem negar os valores da hospitalidade, a presença de Hamidi é um lembrete desconfortável: não basta abrir as portas, é preciso garantir que quem entra possa viver com dignidade.
As suas obras estão acessíveis online e em algumas galerias. Quem as vê, não imagina que o autor talvez tenha dormido ao relento na noite anterior.
Kaihan vende online aguarelas e telas pintadas a óleo. Basta entrar em contacto através do Messenger ou no YouTube, por exemplo. Eu, por exemplo, já lhe comprei 4 aguarelas, para mim e para oferecer.





