“Chuva de Jasmin” é uma tempestade de sentimentos. O último poema do livro é marcante, mas gosto especialmente de outro: “Com travo de chá de menta”, o exemplo do sarcasmo de alguns poemas deste livro.

Na narrativa do poema há a pergunta sobre o que bebe uma menina de pele escura, árabe. A questão colocada sugere um estereótipo previsível – o chá de menta, muitas vezes associado à cultura árabe. Mas a resposta, “medronho”, quebra essa expectativa de forma irónica e provocadora. É um desafio à visão limitada que algumas pessoas têm sobre identidades e culturas.
Shahd Wadi provoca-nos com “Chuva de Jasmin”, por causa dos nossos preconceitos. Ou não fosse ela palestiniana, refugiada, a viver em Portugal.
A coisa pode ser feita com pouquíssimas palavras, como em “Poesia Assassina”.

Um poema brutal e tão simples. A sonoridade deste poema torna a mensagem ainda mais intensa, quase como um golpe seco. “Esta rima me mata” é um tiro apontado à hipocrisia dos políticos e dos que fingem não ver o que se passa na terra de Shahd Wadi, à hora a que jantamos.
A revolta pela impossibilidade da revolução. Mas também a força da poesia de resistência, onde cada palavra carrega um peso enorme.
Shahd Wadi não quer apenas emocionar, mas também sacudir, incomodar, fazer pensar.




Desde criança que confio na Poesia como arma de arremesso.
Depois cresci e passei a acreditar que essa linguagem – para não lhe chamar apenas género literário – podia ser uma ponte de entendimento entre os povos.
Lia muito sobre o costume dos árabes nómadas se sentarem no deserto, à noite, à roda de uma fogueira e de fazerem poemas como o culminar da socialização da jornada.
Ficaram-nos depois poemas lindíssimos a coisas comuns, mas importantes (a uma beringela, quem diria) do Al-Andalus e, vencendo os séculos, outros exemplos onde até a dor da itinerância forçada se podia transformar num saudosismo cheio de beleza.
Mas a Poesia é feita de palavras – armas, ou asas – e é do seu alinhamento que se transformam em exércitos, ou bandos de aves.
À Shahd Wadi, que tem sobrenome de rio, votos de que ela encontre o seu lugar num mundo mais equilibrado feito de correntes mansas. A ela e a todos os que procuram refúgio longe do lugar onde nasceram.
Grata por este texto, Carlos Narciso.