“JÁ NINGUÉM ESCREVE CARTAS DE AMOR”

A propósito de um passado Dia do Pai

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Já ninguém escreve cartas de amor é título de um ainda recente romance de Mário Zambujal, evocador de um tempo situado nos passados anos 50 do século XX, quando ainda se escreviam “cartas de amor”. Longínquo tempo que já foi o meu, quando, ao meio da manhã, esperava a abertura do saco do carteiro ou, à noitinha, o abrir da mala do Correio que chegava na camioneta da “Carreira”.

Dia do Pai, antigamente!… Quantas vezes, evocando, só em memória, um Dia do Pai que não havia, inventando-o, porventura, com uma evocadora flor sobre o mármore de uma campa, no cemitério da aldeia.

Dia do Pai, hoje!… Quando já ninguém lhes escreve cartas de amor e saudade, como antigamente, que eles guardavam na gaveta, lágrimas sentidas, se vinham da ausência do filho que emigrara para a França ou partira para a guerra.

Já ninguém escreve os Postais ilustrados com as vistas bonitas de um paraíso para eles só inventado, antevisto de longe sobre os místicos ombros dos anjos que o guardavam.

Pouco importa, hoje, que o Pai, os pais, esses mais antigos, não recebam a velha carta escrita a tinta sobre papel ou o postal com as vistas só de longe alcançadas, porque o que importa é que o Pai permaneça o mesmo, mansa figura que sempre possa sobre os filhos pairar, mesmo que a sorte o tenha arredado do lar, sombra de amor e saudade, espelho claro onde o filho se possa rever.

Dia do Pai!… Às vezes, abertas as cartinhas de amor que eram os “desenhos” de tintas e cores que os filhos-criança construíam no Jardim de Infância, poéticas imagens construídas entre risos e memórias. E o lento desdobrar das mágicas tiras de papel que nem sempre pintavam uma cor de Primavera.

Quando eu era menino, não havia um Dia do Pai. Era Dia do Pai todos os dias. Ao vê-lo no campo a lavrar, ao vê-lo sentado a uma sombra de castanheiro a descansar, ao olhá-lo à noite, quando a bênção lhe pedia ao soar no sino das Trindades, que a gente, em menino, conhecia pelo “toque de rezar”.

Dia do Pai!… Já não se escrevem cartas de amor. Mas os meus filhos, que já não usam tinta nem papel, inscreveram, hoje, no meu coração cartas de amor.

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