Cumprimentam-se os vizinhos do meu bairro: «Bom dia!», «Boa tarde!». E até a comunidade do Extremo Oriente recém-chegada já se começou a habituar a responder à saudação.
«Olá!», por exemplo, vem de tempos idos e há quem diga ser resquício do que os muçulmanos tradicionalmente diziam ao encontrar-se: «Alá é grande!». E o correligionário respondia: «E Maomé é o seu profeta!». Outros pensam que poderia ser síncope da expressão de chamamento «Ó de lá!». Seja como for, é uma das palavras que poderíamos não deixar de dizer quando encontramos alguém.
Há saudações típicas entre pessoas que pertencem a grupos mais ou menos ‘fechados’ e todos estamos em crer que algumas das estranhas ‘garatujas’ (passe a palavra!) que, de vez em quando, aparecem nas paredes, têm significado inteligível para quem está dentro do ‘esquema’. Frases e gestos que dão a conhecer os seus membros, como os cristãos dos primeiros tempos usavam desenhar no chão um peixe para se identificarem, atendendo a que ΙΧΘΥΣ em grego, ‘peixe’, é um acrónimo utilizado pelos cristãos para a expressão grega Ἰησοῦς Χριστός, Θεοῦ ͑Υιός, Σωτήρ, que significa Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador.

Vem tudo isso a propósito da seguinte passagem do romance A Relíquia, de Eça de Queiroz, livro que já nos serviu aqui para uma “viagem” ao tempo dos Romanos:
«Mas Topsius, logo, como um Germano servil, desmontara, ajoelhando quase no pó, ante as armas de Roma: e não se conteve, berrou, agitando os braços e a capa:
– Longa vida a Caio Tibério, 3 vezes cônsul, ilírico, panónico, germânico, imperador, pacificador e augusto!…
Alguns legionários riram, crassamente. E passaram, cerrados, com um rumor de ferro – enquanto um pegureiro, ao longe, arrebanhando as cabras aos brados, fugia para o cimo dos cerros».
Para um leigo tudo isso poderá parecer estranho e ser mera brincadeira do Eça. Não é.
Nas inscrições, havia regras para se identificarem os imperadores. O primeiro, que habitualmente designamos de Augusto, estabeleceu que o seu nome deveria ser Imperador César Augusto. Imperador, porque subira ao trono pela força das armas; César, porque ascendera por via hereditária (era filho adoptivo de César); Augusto, porque os deuses o haviam escolhido para trazer o bem-estar ao seu povo.


Neste caso d’A Relíquia, o imperador referido é Tibério, exactamente aquele que sucedera a Augusto e que reinou de 14 a 37 da nossa era. Por conseguinte, está certo: nesse tempo (Cristo, segundo a tradição, tinha 33 anos quando foi crucificado), era Tibério o imperador. Eça acertou no nome do imperador; não acertou, porém, exactamente nos títulos que lhe atribui:
– nessa altura, já teria sido nomeado cônsul 5 vezes;
– sim, havia sido aclamado ‘imperador’ 8 vezes (a celebrar outras tantas vitórias);
– augusto era-o, de facto, porque todos os imperadores não recusaram esse nome;
– agora, não teve oficialmente os títulos de ilírico (conquistador da Ilíria, que ficava pelo território da ex-Jugoslávia), nem panónico (conquistador da Panónia, mais ou menos a Hungria), nem germânico (conquistador dos Germanos, povo antepassado dos Alemães). Poderia, no entanto, tê-los obtido, porque venceu tribos germânicas e, juntamente com Germânico, seu filho adoptivo, derrotou, no ano 9, após três anos de luta, os Panónios e as tribos ilírias, naquela que ficou conhecida como a Grande Revolta Ilíria.
Por consequência, não estava Eça de Queiroz longe da verdade: os títulos militares não foram oficialmente atribuídos, mas o imperador Tibério notabilizou-se nessas lutas e o povo devia sabê-lo! E então Topsius, como germano que era, devia dobrar a cerviz perante os soldados ao serviço do imperador que tinha submetido o seu povo!…





Adoro estas matérias, de modo que li este texto com avidez.
Para já o “presente” (Eça aqui numa ficção bem fantástica, já que vinha deixando o realismo) e lá longe o imperador Tibério que era uma rica peça, como outros antes e depois dele…
Mas o curioso é que estes líderes violentos e depravados, podem usar o que de mais belo existe : espaço físico como Capri, no caso dele, onde tinha um palácio magnífico e passava a maior parte do tempo entregue a orgias com rapazinhos como o sobrinho-neto Calígula, que viria a herdar a honra de chamar-se Augusto. Pouco tempo…
Voltando ao século XIX a que chamei “presente”, Dr. Topsius, o amigo de Teodorico , a prestar preito a quem submetera o seu povo, é que não parece de um erudito, quase sempre com capacidade crítica aberta pelo conhecimento, mas de um escrtavo a exibir a degradação do servilismo.
E logo a Tibério, contemporâneo de um homem chamado Jesus, que parte do povo acreditava ser Cristo, o Ungido, ou Masiah, que sofria o castigo máximo dos romanos (cruxificação) por ser revolucionário e querer a liberdade para o povo!
Só foi sacrificado porque o povo estava dividido. Ainda não sabia, nem hoje sabe, que “a união faz a força”, o slogan que todos os grupos deviam gritar, em vez de cada um se julgar o escolhido, como os Augustos.
Muito grata pelo texto, José d’ Encarnação. Beijinho.
A menina sabe tecer um comentário com todo o jeito. Bem hajas pelo enriquecimento.
Prezada Helena
Não desejaríamos, neste presente caótico, um novo Augusto, que nos garantisse a paz e pudéssemos “navegar de Oriente a Ocidente” sem receios? É de reflectir…