Marketing do Governo

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O Dia Internacional da Limpeza Costeira foi celebrado em Portugal por uma iniciativa inédita de limpeza subaquática, organizada pela “Oceanum Liberandum”, associação sem fins lucrativos e que se dedica, entre outras actividades, a limpezas subaquáticas e de praias. Estas iniciativas contam com o patrocínio e apoio de inúmeras empresas e da Câmara Municipal de Sesimbra, e principalmente de centenas de voluntários que se uniram com vista a defender os oceanos e que pretendiam até bater o record mundial do Guinness com o maior número de mergulhadores presentes numa ação de limpeza aquática. Esse objectivo foi atingido.

A Secretária de Estado das Pescas, Teresa Coelho, participou numa das atividades de recolha de lixo costeiro-terrestre, e frente às câmaras e microfones de televisão, fez questão de sublinhar “a importância destas iniciativas no âmbito da promoção de métodos ambientalmente sustentáveis, nomeadamente enquanto factor decisivo para a valorização dos sectores da Pesca e da Aquicultura“.

A notícia apareceu na página do Governo bem como na página do Ministério da Agricultura e Alimentação, em ambas as suas contas do Facebook, bem como em vários órgãos de comunicação social.

E de tal forma foi redigida, que o incauto leitor ficaria com a garantia de que o Governo teria, se não sido o mentor da iniciativa, pelo menos um seu opulento patrocinador.

Pois, mas nem uma nem outra dessas ideias estaria correcta – e nem de perto nem de longe.

A muito louvável iniciativa de recolha de lixo costeiro-fluvial-marítimo contou com zero apoio do Governo Português, quer a nível financeiro quer de meios, nem por parte do Ministério da Agricultura e Alimentação nem por parte do Ministério do Ambiente.

Aliás, este último, no anterior Governo, até fez gáudio de orelhas moucas, olimpicamente ignorando os sucessivos pedidos de audiências e exortações por parte de organizações ambientalistas nacionais e internacionais, aquando do prenhe de obscuros interesses, dramático, selvagem, iníquo e absurdo processo de dragagem do Rio Sado, que decorreu contra a vontade da população, dos ambientalistas e com o beneplácito, e explícito e directo patrocínio da ex-Presidente da Câmara de Setúbal, e com o implícito apoio por omissão do Ministério do Ambiente e do Governo, com as nefastas consequências quer na Reserva Natural do Estuário do Sado quer no Parque Marinho Professor Luiz Saldanha, área marinha protegida e parte integrante do Parque Natural da Arrábida e gerido pelo ICNF.

Imagem ilustrativa das consequências das dragagens no Rio Sado

A pergunta que resta formular é, enfim, apenas a seguinte:

Teresa Coelho esteve presente nesta iniciativa como cidadã ou como membro do Governo? Se compareceu como cidadã e ajudou a recolher lixo costeiro, a sua presença é de acolher e louvar.

Se, por outro lado, compareceu no papel de Secretária de Estado das Pescas e deixou-se fotografar e vídeogravar como tal, no mínimo seria interessante que nos informasse em quê o Governo contribuiu para o evento, ou se a senhora apenas esteve presente para capitalizar o acontecimento e para passar a mensagem da “preocupação” [inexistente até à data] do Governo com o Estuário do Rio Sado e respectiva envolvente terrestre e marítima.

Aguardemos os seus preciosos esclarecimentos. Mas sentados.

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