Quatro da manhã

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Entre lençóis zapei. Fiquei presa nele. O bailarino russo que fugiu da União Soviética e veio para o Ocidente pisar todos os palcos do mundo. Um filme que copia a realidade. Baryshnikov encantou-me logo na primeira cena, dança na perfeição, arranca-nos o coração. Nunca o vi ao vivo. Logo eu que me chamo Sónia, nome inspirado  numa bailarina russa que nunca soube quem foi.

O sol da meia-noite” foi um filme que vi em VHS, numa altura em que via tudo em VHS e não havia um filme do clube de vídeo que não conhecesse. Aquela música do Phil Collins andou pregada a mim. Devo ter chorado por alguém ao som dela, não me recordo por quem.

A remar contra o sono que não vinha, percebi que o sapateado e o bailado já não me impressionavam tanto. Ela, pelo contrário, sim. Já não me lembrava que entrava neste filme, ou na altura não sabia quem era. Disseram-me mais do que uma vez que tinha semelhanças com ela e foi a vê-la ali, tão jovem, que percebi a comparação, obviamente exagerada. Muito. Ela, tão bonita, é tão bonita a Isabella Rosselini, naquela altura e agora.

Fiz um chocolate quente e fui até ao escritório para te dizer que me fez falta o teu tronco para abraçar enquanto revia o filme. Ainda me apetece chorar com a música. Não de tristeza, mas de amor. Aquele que sinto por ti, que tenho guardado para te dar. Tenho medo que o vento e a vulgaridade o levem. Que se perca na nulidade do quotidiano.

Sabes, apesar dos percalços, continuo a acreditar no amor. Acredito no amor que tens para me dar. Lembro as noites em que fizeste amor comigo selvaticamente e dos jantares que preparaste naqueles finais de dia em que cheguei a casa extenuada do mundo.

Quero ir contigo a Moscovo, no Solstício de Verão, onde já não se perseguem bailarinos, e passear pelas ruas às quatro da manhã, com a claridade das quatro da tarde. Quero sentir o sol da meia-noite contigo.

Anda, vem deitar-te, já sabes que não consigo adormecer sem estar abraçada a ti, sem ouvir a tua respiração. Preciso do teu corpo quente para aquecer as malditas pernas que gelam nestas noites.

E de dia, preciso que me grites para ir atrás dos meus sonhos. É que já não sei quais são. Isto de ter jeito para fazer qualquer coisa é uma bela duma rasteira. Anda, são quatro da manhã.

Não te preocupes, apaixonando-me por ti, apaixono-me por mim, não viverei na tua dependência. Não. Ficarei cheia de força para enfrentar o que for preciso e mais alguma coisa. Quero ver nos teus olhos o amor que tens pelo que sou capaz de fazer e pelo que não fui mas tentei. Estou sem forças para tentar sozinha. Vá, anda para aqui.

Quero acordar com o cheiro a café e ver a caneca que pões sempre no balcão da cozinha. “Come and get it”, dizes com um sorriso que me tira automaticamente da cama. Vá, anda, quero fazer amor contigo. Anda, está quase a amanhecer.

Sem ti não há sol da meia-noite, só noites em claro.

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