Diário de Classe: A “Escola-Município” no Reino do Wi-Fi

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09:00 – Tento aplicar a máxima de António Sérgio: “A democracia é a educação do povo”. Proponho à turma do 11.º ano que se autogoverne nesta aula, gerindo o tempo de debate sobre a cidadania e o esforço intelectual.

O Francisco levanta o braço: “Stôr, gerir o tempo dá muito trabalho. Não dá para fazer um quiz no Kahoot e o stôr dar-nos ‘Excelente’ a todos por participação inclusiva?”

09:20 – Explico, munido do espírito da Seara Nova, que o facilitismo é o novo caciquismo. Antigamente, o cacique comprava o voto com um saco de batatas; hoje, o facilitismo compra a paz social trocando o esforço real por “grelhas de avaliação flexíveis” e “projetos de competências sócio emocionais”.
A Mariana, que não larga o telemóvel, reage: “Stôr, o Sérgio está desatualizado. No TikTok, o meu influencer favorito diz que o esforço manual e intelectual é tóxico. O segredo é o manifesting e o empreendedorismo digital. Para quê ler ensaios se o ChatGPT resume isto em três tópicos com emojis?”

09:45 – Insisto no conceito de “Trabalho Produtivo” de Sérgio: aprender fazendo, errando, assumindo a responsabilidade cívica. Proponho que escrevam um manifesto crítico, à mão, sem ecrãs.
Gerou-se o pânico coletivo. A associação de estudantes (os novos caciques em formação partidária) entram pela sala dentro: “Stôr, recebemos queixas de que esta aula está a violar o bem-estar psicológico dos alunos. Exigir que eles pensem criticamente sem uma linha de orientação já mastigada causa ansiedade. O novo decreto-lei diz que o aluno deve ser o centro do processo, e o centro não quer fazer redações.”

10:15 – Toca o toque de saída. O Diretor da Escola chama-me. Diz-me, com a mesma bonomia do velho Conselheiro do século passado: “Ó colega, para quê esse rigor sérgiano? Se lhes ensina o self-government e a autonomia, eles começam a questionar as nossas estatísticas de sucesso escolar! Nós precisamos de 100% de transições para o Ministério ver que somos modernos. Facilite-lhes a vida, dê-lhes um portefólio colorido, avalie a ‘atitude’ e todos ficamos felizes.”

António Sérgio, onde quer que esteja, deve estar a pedir para chumbar o século XXI por falta de aproveitamento.

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