Vivemos mais anos. Temos hoje milhões de pessoas com mais de 65, 70 ou 80 anos plenamente lúcidas, intelectualmente activas, criativas e capazes de continuar a contribuir para a sociedade.
Mas os sistemas continuam organizados segundo modelos antigos, concebidos numa época em que envelhecer significava incapacidade.
Hoje já não é assim. Existe uma diferença profunda entre idade biológica, mental e administrativa.
A primeira pertence ao corpo. A segunda pertence à curiosidade, criatividade, inteligência e vontade de continuar a participar no mundo. A terceira pertence aos formulários e mecanismos burocráticos que classificam seres humanos através de números. E é precisamente aí que nasce uma das grandes injustiças silenciosas do nosso tempo.
A sociedade continua a investir fortemente na preparação dos jovens para entrarem no sistema, mas investe muito pouco na continuidade criativa, intelectual e humana daqueles que chegam às fases maduras da vida. Muitas reformas transformaram-se numa espécie de corredor de espera social. Como se a vida criativa tivesse terminado apenas porque terminou um vínculo profissional.
Mas o ser humano não é apenas função laboral. Há pessoas que atingem precisamente nas fases mais maduras da vida a sua maior profundidade humana, capacidade crítica e visão do mundo. A experiência acumulada não deveria ser descartada. Deveria ser integrada.
No entanto, continuamos a viver numa cultura obcecada pela velocidade, juventude, estética e novidade permanente, confundindo frequentemente juventude com valor e envelhecimento com irrelevância. É um erro civilizacional.
Nunca precisámos tanto de memória, pensamento crítico, experiência e capacidade de interpretação humana. E, paradoxalmente, afastamos precisamente aqueles que poderiam ajudar a compreender melhor o tempo em que vivemos.
O mais curioso é que aquilo que hoje acontece às gerações mais velhas acontecerá inevitavelmente aos jovens actuais. Também eles descobrirão um dia a distância dolorosa entre aquilo que continuam capazes de fazer e aquilo que os sistemas lhes permitirão continuar a fazer.
Esta não é apenas uma reflexão sobre envelhecimento. É uma reflexão sobre o modelo de sociedade que estamos a construir. Uma sociedade saudável não pode desperdiçar inteligência, experiência e criatividade apenas porque passaram determinados anos sobre um documento de identificação.
Talvez esteja na altura de reinventar o lugar da maturidade nas democracias contemporâneas. Porque envelhecer não deveria significar desaparecimento. Poderia significar exactamente o contrário: mais profundidade, mais consciência, mais humanidade e uma nova forma de contribuição social.



