Todos os anos, o guião repete-se com uma precisão cirúrgica. Surge uma manchete em letras garrafais na barra do telemóvel: “Alerta global: vírus mortal sem vacina nem tratamento”.
O coração acelera, a memória recente de 2020 desperta e o leitor clica, partilha e consome o pânico. Dias depois, descobre que se tratava de um surto isolado de Ébola numa aldeia remota da República Democrática do Congo, contido eficazmente pelas equipas locais. Passaram semanas, a calamidade prometida não aconteceu, mas o lucro do clique já entrou na conta do órgão de comunicação. Vivendo na ressaca psicológica da COVID-19, o jornalismo moderno descobriu uma mina de ouro: o clickbait sanitário.
O CICLO INFINITO DO MEDO
Estamos reféns de uma engrenagem mediática que se alimenta da nossa vulnerabilidade. Do Norovírus ao Hantavírus, passando pelas recorrentes vagas de Gripe Aviária, qualquer mutação biológica de rotina é tratada pelas redações como o prenúncio do fim do mundo.
O caso do Ébola é o exemplo mais flagrante de amnésia coletiva planeada. Cientificamente, sabemos que o vírus se transmite por fluidos corporais, o que limita de forma drástica o seu potencial de contágio. No entanto, vende-se o Ébola como se fosse uma peste aérea iminente.
O Hantavírus segue a mesma cartilha. Esconde-se o facto de que a transmissão entre humanos é uma raridade biológica e que o risco real advém do contacto com roedores, tudo em prol de um título vago e assustador.

A verdade económica por trás destas manchetes é simples: o medo é o algoritmo mais rentável da internet. Na atual economia da atenção, as plataformas digitais e os meios de comunicação não são pagos pela qualidade da informação, mas sim pelo volume de interações. Um relatório técnico da OMS sobre uma “variante sob monitorização”, algo perfeitamente normal na ciência, transforma-se em “ameaça mortal” porque a moderação e o rigor não geram scroll infinito nem receita publicitária. O jornalismo de saúde foi substituído pela gestão do susto.
O mais recente sobressalto, à data em que escrevo este artigo, foi este:

O EFEITO “PEDRO E O LOBO”
Este alarmismo injustificado gera uma ansiedade social desnecessária. Mas, ao banalizar o estado de emergência para faturar com o Norovírus, os média provocam uma fadiga de alerta na população. Quando um patógeno verdadeiramente perigoso e com potencial pandémico real emergir, o público poderá simplesmente encolher os ombros, anestesiado por anos de falsos apocalipses mediáticos.
Não podemos vacinar-nos contra todos os vírus da natureza, mas podemos e devemos vacinar-nos contra o clickbait sanitário. Afinal, a pior epidemia que enfrentamos hoje não é biológica, é editorial.
Esta espécie de febre noticiosa pode estar relacionada com o Tratado Pandémico adotado formalmente a 20 de maio de 2025, durante a 78ª Assembleia Mundial da Saúde realizada em Genebra, na Suíça.
OS NEGÓCIOS DO COSTUME
O texto político está aprovado, mas a parte técnico-científica ainda não. Falta conciliar interesses muito divergentes dos diferentes blocos geopolíticos, organizações de saúde e setores industriais, cada um motivado por interesses estratégicos distintos.
Por exemplo, Estados Unidos e Reino Unido recusam assinar cláusulas que obriguem à quebra de patentes ou à partilha forçada de tecnologia. O interesse deste bloco é puramente focado na vigilância epidemiológica global, salvaguardando a propriedade intelectual das suas farmacêuticas.
Gigantes farmacêuticas (como a Pfizer, Moderna, AstraZeneca e Roche) e as suas associações setoriais são os atores privados mais influentes no processo. Eles querem produzir medicamentos para os vender, ponto. Para isso, não prescindem dos seus direitos de propriedade intelectual (patentes). A indústria argumenta que a quebra de patentes destrói o incentivo financeiro para investir milhares de milhões em investigação e desenvolvimento de novos fármacos. Dito de outra forma, estraga-lhes o negócio.
Lembremo-nos ainda como foi que as vacinas anti-covid produzidas por laboratórios residentes em outros blocos geopolíticos foram menosprezadas pelos governos ocidentais. Afinal, essas vacinas produzidas na China, na Rússia ou na Índia funcionaram tão bem ou tão mal como as dos laboratórios ocidentais.
Chegados a este ponto, falta dizer que a eclosão de uma nova crise pandémica funcionaria como um potenciador imediato para a ratificação célere do tratado. O medo de um novo colapso económico e hospitalar destruiria a inércia burocrática atual. Os Estados seriam pressionados a assinar qualquer mecanismo global de proteção imediata.





