COMEMORAR ABRIL NUM TEMPO SEM TEMPO

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A festa do 25 de Abril de 1974 transformou-se, 52 anos depois, num imenso deserto de ideias, de projectos, de esperança e Portugal continua um País adiado, permanentemente adiado.

Juntos 52 anos, em democracia, não nos permitem, tal como Patxi Andion, dizer com amor:

‘20 anos de estar juntos
Esta tarde se cumpriram
Para ti flores, perfumes
Para mim, alguns livros
No te disse grandes coisas
Porque no me haviam saído
Já sabes coisas de velhos
Ressentimento do que não fui.
Há muito tempo que tentamos
Qualificar o nosso destino
Tu descias a persiana
E eu provava o meu último vinho.’

Portugal é um País triste, ‘ansiolítico’, que vive à beira do precipício, numa ‘insustentável leveza do ser’, tal como Tomás, um personagem criado por Milan Kundera, que escolhe ser ‘leve’ para não pensar, nem se preocupar com o que o rodeia.

E leve, bem leve, é a relação de Portugal com as graves questões sociais, económicas e financeiras neste Mundo global, neste tempo sem tempo, em que, vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas, os mercados financeiros não param e destroem os países e as Nações, na voragem do lucro que levará, inevitavelmente, à destruição do sistema financeiro, com a conivência de países que lançam guerras sem fim dando a ganhar, a alguns, fortunas imensas.

No caso português, os governos desperdiçaram, sucessivamente, as oportunidades de enfrentar os desafios do futuro, não tendo reestruturado o tecido produtivo, não criaram nichos de mercado que alargasse as exportações e trocaram a agricultura e a pesca por meia dúzia de ‘sestércios’.

Ao longo dos anos nunca foi definido um rumo e um objectivo para Portugal. Sempre vivemos ‘à bolina’, na expectativa de encontrarmos um caminho que não desse trabalho, não obrigasse a pensar e não exigisse massa crítica. Uma boa parte da nossa classe empresarial apenas sobrevive porque se tornou subsídio-dependente do Estado e dos Fundos Comunitários. Tal como no tempo das Descobertas, em que vivemos, parasitariamente, das especiarias, do ouro e da escravatura, encontrámos na Europa uma nova forma parasitária de sobrevivermos e fingir que éramos um País desenvolvido.

E agora, voltando a Patxi Andion, ‘Passaram-nos a conta e tu terás que pagar e eu terei que pagar também, teremos que pagar.’

Porém, por muito que se queira esconder a realidade e que se viva no reino da fantasia, o Mundo está conturbado e agita-se a um ritmo imparável, sem rumo e com um destino incerto.

A guerra desencadeada pelos Estados Unidos e por Israel, contra o Irão, com o objectivo de colocar em crise o poder religioso, num confronto entre laicismo e religião, pode ser um erro clamoroso e as alterações no Médio Oriente acabarem por ser um completo desastre para a economia global. As repercussões desta agitação, na Europa e no resto do Mundo, estão a ser avassaladoras, com graves efeitos na economia e no sistema financeiro, além de alterarem conceitos culturais e concepções políticas.

Foi neste quadro mundial que se comemorou o 25 de Abril de 1974, com dois discursos antagónicos, o do Presidente da República e o do Presidente da Assembleia da República, que, sem pudor, fez uma intervenção inqualificável, de total desprezo pela data e pelos princípios democráticos.

Mas, afinal o que foi o 25 de Abril de 1974? Não é possível dar uma resposta simples, clara e unificadora, porque houve vários 25 de Abril. A devolução da democracia aos portugueses é um dos poucos pontos em comum entre as diversas concepções do 25 de Abril (mais para uns do que para outros), que se ergueu como o Nirvana, mas que não passa de um imenso vazio, fora de uma profunda reformulação do Estado e da sociedade.

Na verdade, derrubado o regime salazarista, os partidos e os militares esqueceram-se do fundamental: pôr fim às concepções napoleónicas e rasgar a estrutura administrativa nascida com o Código de Rodrigues Sampaio, que o Estado Novo integrou como seu, ou seja, limitaram-se a dar umas pinceladas democráticas no Estado corporativo, mantendo o essencial dessa estrutura. E este erro, básico, inquinou todo o processo democrático e a evolução do País.

Falar de Abril, comemorar Abril, não pode ser uma ideia redutora da data, transformada, cada vez mais, num feriado que serve para fazer uma ponte e ter mais uns dias de férias.

Falar de Abril é falar do futuro, de uma concepção dinâmica da sociedade portuguesa, dizer o que se quer, para onde vamos e como podemos lá chegar. Porque Abril não alimenta, não dá pão, não dá emprego, não cria riqueza. Em 52 anos de democracia, o regime envelheceu. O Mundo está a mudar, os partidos de extrema-direita e populistas, estão a crescer, sendo que no nosso País esse fenómeno também se verifica.  

Os cidadãos começam a estar fartos desta classe política. E que não se entenda esta afirmação como um discurso contra a classe política. É precisamente o contrário, ou seja, um chamamento a melhores políticos e a mais e melhor democracia. É verdade, os tempos são de mudança em Portugal e no resto do Mundo e todos nós, inevitavelmente, também mudámos, porque, como diz Eduardo Lourenço, ‘o Mundo está a mudar rapidamente e os políticos europeus e portugueses relativizam as coisas, sem pensar no global’.

Defensor do ideal da liberdade, igualdade e fraternidade, preocupado com a justiça social, acompanho, com apreensão, a deriva demo-liberal nos mais diversos países europeus, um desastre de proporções tão gravosas que não a quero para o meu País. Portugal precisa de crescer, de se desenvolver, de criar massa crítica, de ter capacidade para reduzir o desemprego, de aumentar a riqueza, para que se combata a pobreza – a visível e a envergonhada – dos reformados, dos idosos, de uma classe média que empobrece e tem vergonha de mostrar a sua decadência. Para isso, é fundamental ter coragem para mudar! Portugal é um País de navegadores, de conquistadores, de descobridores (‘navegar é preciso; viver não é preciso’, dizia Fernando Pessoa).

Mas é fundamental ter esperança para se sair da crise. Porque, sem esperança, nada será possível num regime envelhecido, em que não se vislumbram sinais ou vontade de que os responsáveis o queiram repensar ou mudar. Esperança, mudança, democracia, coragem, lucidez é só isto que se exige a quem queira estar na política.

O mar de jovens que encheu as ruas no dia 25 de Abril pode dar corpo a esta esperança, vamos acreditar que, com essa onda, venha a coragem e a lucidez que ancorará a mudança.

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