Historiador, arqueólogo e epigrafista, Encarnação construiu uma carreira centrada no estudo das inscrições antigas, tendo sido o primeiro português admitido na Association Internationale d’Épigraphie Grecque et Latine, algo que nada diz ao público em geral, mas que tem peso considerável entre especialistas da área. A epigrafia, disciplina que exige rigor técnico e uma relação quase artesanal com as fontes, foi o eixo de um trabalho desenvolvido ao longo de décadas, em ligação estreita com a investigação arqueológica.
Professor na Universidade de Coimbra, onde deixou marca no ensino e na formação de várias gerações, Encarnação conciliou a actividade académica com trabalho de campo, nomeadamente no concelho de Cascais, onde dirigiu diversas intervenções arqueológicas. Esse cruzamento entre teoria e prática contribuiu para um perfil que não se esgota na produção científica, mas que se estende à valorização concreta do património.
Natural de São Brás de Alportel, lugar onde não há memória de terem nascido antes cientistas ou grandes vultos da intelectualidade nacional, o percurso de José d’Encarnação foi inovador no sentido em que parece contrariar esse estigma sobre a distância do lugar onde nascemos e os centros tradicionais de produção académica.
José d’Encarnação mantém uma presença regular no espaço público através da escrita. É autor de vasta bibliografia que inclui obras técnicas de referência, estudos sobre a romanização e livros dedicados à história local de Cascais. Ainda encontra tempo e disponibilidade para escrever em jornais regionais, blogs e no site Duas Linhas, onde publica textos sobre arqueologia e cultura, num registo que oscila entre a divulgação e a reflexão, sem se afastar da exigência intelectual que caracteriza o seu percurso.
A atribuição do Doutor Honoris Causa surge, assim, como formalização de um reconhecimento que, nos meios académicos, há muito estava estabelecido.



