Dia 1: Cunene
Do Lubango (Angola) a Tsumeb na Namibia – 10h de carro
Surpreendeu-me a água. E o gado. Mas sobretudo a água. Há mais de cinquenta anos que ouvi, pela primeira vez, a palavra Cunene. Foi no início dos anos 70, quando um amigo do meu pai partiu para instalar a Estação de Orizicultura do Cunene. Desde então, ficou-me a ideia de uma região fértil, de zonas húmidas propícias ao arroz. Ainda assim, depois de meses a ouvir falar de seca persistente no Sul, não estava preparada para o que encontrei: extensões alagadas, reflexos de água onde esperava poeira, e rebanhos em movimento, como se seguissem um ritmo antigo, indiferente às previsões e aos alarmes de seca.
Foram dez horas de estrada até ao Callie’s Lodge, mas a viagem começou, na verdade, com esse espanto inicial – essa água inesperada que parecia querer contrariar as minhas expectativas.
Dia 2: Há qualquer coisa de especial nos rios que são fronteiras
De Tsumeb a Divundu (Namibia) – 6h de carro
A manhã começou com a visita ao meteorito Hoba. Mas é a terra – e não o que vem do espaço – que me impressiona.
Ao fim do dia, chegámos ao rio a tempo de apanhar oa últimos minutos do “cruzeiro” ao pôr do sol, como se o próprio dia tivesse esperado por nós.
O Divava Lodge ergue-se sobre o rio Kavango, nome que o rio carrega, depois de se chamar Cubango, e antes de se transformar em Okavango ao entrar no Botswana.
Do outro lado, ao alcance do olhar, e quase ao alcance de meia dúzia de braçadas, é Angola.
Há qualquer coisa de especial nos rios que são fronteiras. Lembrei-me do Mekong, que separa / une países, como o Laos da Tailândia e do Camboja, e do rio San Juan, entre a Costa Rica e a Nicarágua. Aqui, como nesses lugares, a água não divide, apenas desenha limites que a paisagem, os animais e as gentes, parecem ignorar. A certa altura, estivemos numa pequena ilha no meio do rio. Não sei a que país pertence. Talvez isso nem importe.

Dia 3: do Kavango ao Okavango
De Divundu (Namibia) a Maun (Bostswana) – 6 horas de carro
Atravessar o Bwabwata National Park foi como entrar, mais uma vez espantada, num inventário vivo de África.
Primeiro, os antílopes, discretos e elegantes. Depois as zebras, como riscas em movimento. As girafas surgiram mais tarde, quase silenciosas na sua altura improvável. E, por fim, os elefantes — sempre eles, sempre maiores do que a paisagem que os contém. O leão apareceu como uma exceção, uma raridade breve que confirmou a regra.
A fronteira com o Botswana foi simples, quase despojada, e talvez por isso mesmo eficaz.
Do outro lado, o rio já se chama Okavango e começa a desfazer-se em múltiplos canais, insinuando o delta que mais à frente se expandirá. Não vemos a água da estrada, mas sei que se espalha, multiplica-se, abranda — como se recusasse qualquer pressa. Confirmei isso mais tarde, da varanda do Crocodile Camp, sobre um braço do rio coberto de nenúfares.
Dia 4: No coração do Delta do Okavango
O Mokoro desliza sem pressa. É esse o seu segredo.
As canoas, hoje feitas de fibra para preservar as árvores, mantêm o gesto antigo: o avanço lento, o silêncio quase absoluto, o som ritmado do pau que toca a água e o lodo. Navega-se com todos os sentidos.
Primeiro vamos ver os hipopótamos, numa espécie de lagoa, pesados e aparentemente tranquilos, mas donos de uma reputação que contrasta com a sua placidez. Afinal, são dos animais que mais matam em África, logo a seguir aos mosquitos.
Depois, já nos estreitos canais, um elefante. Imóvel. Tão imóvel que por momentos me pareceu de pedra.
As canoas param, saímos, caminhamos e aproximámo-nos a pé, em silêncio, até o ver de perfil. Abana as orelhas enquanto arranca a erva com a tromba e a leva à boca, num gesto repetido, quase mecânico. O guia explicou que aquele movimento das orelhas era sinal de tranquilidade. Mas o vento mudou, e com ele, a nossa posição na ordem invisível da savana. Recuámos.
De volta ao Mokoro, seguimos por canais cada vez mais estreitos, rodeados de papiros altos, até o reencontrar, de frente no fim de um estreito canal. Permanece ali, imponente, imponente como só os elefantes sabem ser, como se não pertencesse a este tempo. Fiquei a observá-lo. A tentar perceber, talvez inutilmente, o que faz ali um elefante sozinho. Há qualquer coisa de hipnótico naquela presença de elefante.

Continuamos a deslizar e lembrei me de um passeio semelhante, num outro delta, sem animais, mas também em silêncio. Um passeio que fiz com um velho barqueiro há mais de 20 anos no Delta do Danúbio (na Roménia).
Dia 5: Elefantes felizes
De Maun a Kasane (Botswana) – 7 horas de carro
Chegámos ao Senyati Camp ao fim do dia, no momento exato em que a luz abranda e tudo parece suspenso.
Da varanda do espaço comum que serve de bar, víamos o pôr do sol quando uma família de elefantes se aproximou da charca. Descemos ao bunker – uma ideia genial, simples e brilhante: observar os animais ao nível do solo, próximos e invisíveis.
Ali, a poucos metros, desenrolou-se uma cena de intimidade tranquila. Bebiam, brincavam, tocavam-se. Fiquei ali uma hora, talvez mais, a assistir àquilo a que chamei, em silêncio, de “família feliz”.
Quando voltei ao local, já depois do jantar preparado e comido junto às tendas, dois elefantes adultos tinham voltado, ou eram outros, não sei. Um último quadro na savana, antes de me recolher para dormir.
(continua)



